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Pare a guerra contra as crianças

Infelizmente, nossas crianças não vão escapar da guerra
Maria Montessori. Foto: reprodução

O noticiário anuncia que uma escola foi bombardeada e 150 crianças morreram. As nossas crianças sabem que poderiam ter sido as vítimas.

Um país da América Latina é invadido e seu presidente é sequestrado. Nossas crianças sabem onde fica a fronteira. Elas têm medo.

Com um pouco de sorte, a guerra não vai chegar ao Brasil, mas suas dimensões geográficas crescem a cada dia, e as consequências sociais e econômicas dela também. A guerra já afeta a mente de nossas crianças.

O sequestro de presidentes, o bombardeio de escolas ou hospitais e as mortes são a parte menos sedutora das guerras, mesmo para quem gosta delas.

Quem começa guerras, em geral, o faz pela outra parte: se vencerem, terão domínio, poder e controle. Poderão prever e decidir o que acontecerá nas regiões. Poderão acumular terras, recursos naturais e econômicos.

Infelizmente, os comportamentos bélicos não começam na disputa entre nações, mas na primeira relação com diferenças de poder que todos nós vivemos: aquela entre um adulto e uma criança.

O adulto diz à criança: Se você não arrumar o seu quarto, eu vou juntar seus brinquedos e jogar no lixo. Demonstra assim seu domínio.

O adulto pega o braço da criança e diz: É hora de ir embora do parque. Arrasta a criança que não pôde se despedir de seus amigos e demonstra seu poder.

O adulto diz à criança que ela deve comer toda a comida do prato e que só sairá da mesa com o prato vazio. Impõe um distúrbio alimentar futuro, mas se satisfaz porque exerce controle.

O adulto poderia deixar a criança relativamente livre em casa. Se ela quer fazer um sanduíche, o adulto pode mostrar como se faz, dar três passos atrás e assistir às tentativas, erros e aprendizados da criança. Os erros e as escolhas da criança são imprevisíveis, mas ela ganha em autonomia se puder viver tudo isso.

Quando, em vez disso, fazemos por ela, ou dizemos que não é hora de fazer sanduíche, tomamos uma decisão por ela que nos poupa dos imprevistos, enquanto ao mesmo tempo sequestramos a autonomia da criança.

É claro que odiamos a guerra. Mas isso não é suficiente. Nós precisamos amar alguma coisa.

Se a guerra é o que não queremos, precisamos nos perguntar o que desejamos, e talvez nos venham palavras como: liberdade, justiça, cuidado, respeito, autodeterminação e soberania.

Se essas forem suas palavras, em seguida vale a pena fazer as perguntas certas: Como posso oferecer tudo isso aos menores entre nós?

É fácil fazer uma guerra contra alguém mais fraco, mas não é fácil garantir a liberdade, a justiça e a soberania de alguém que poderia ser esmagado por nossas tentativas de domínio e controle.

Paulo Freire nos ensinou: Se a educação oprimir a criança, ao se tornar um adulto ela buscará alguém para oprimir. Pode ser uma esposa, um filho, ou um país inteiro. Mas esse não é o fim do caminho. Nós podemos escolher caminhar de mãos dadas com a esperança nas crianças que estão diante de nós.

De Volta para o Futuro

Na década de 1930, Maria Montessori, educadora e pacifista, anunciava ideias de paz e união, contrárias ao fascismo de seu país, de onde seria exilada.

Observando crianças há quarenta anos, Maria Montessori entendeu que era na educação delas que estava a semente da esperança de um futuro muito melhor.

Divido aqui duas frases de Maria Montessori:

“Devemos acolher o humano em si, com paciência e confiança, em todos os estágios da educação. […] Esta será uma preparação para a paz, pois a paz não pode existir sem justiça e sem humanos dotados de uma personalidade forte e uma consciência sólida.”

“O trabalho dos políticos é evitar a guerra, estabelecer a paz duradoura é trabalho da educação.”