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Para que serve a educação, e quais serão suas renúncias?

Apesar das promessas comuns das redes sociais, nenhum processo nos dá tudo de uma vez. A fama está ao alcance de muita gente, mas, em troca, se dá a privacidade. A transição de carreira é possível, mas, em troca, damos horas de folga e de sono para estudar. Aceitamos as trocas como parte da vida.

No entanto, quando escolhemos escolas para nossos filhos e quando decidimos educar de uma ou outra maneira, temos a ilusão de que não vamos precisar fazer trocas.

Por exemplo, acreditamos que a mesma escola pode formar cidadãos conscientes, líderes capazes, pessoas felizes, profissionais bem remunerados e ainda garantir um lugar nos vestibulares mais concorridos. Tudo isso sem renunciar a uma forma de ensinar que foi desenhada há 200 anos para formar profissionais pontuais, cidadãos obedientes e pessoas submissas.

Em casa, às vezes acreditamos que vamos educar filhos felizes, com uma relação de confiança conosco, coragem e consciência social, prontos para o sucesso e cheios de criatividade, mesmo sem renunciar a uma educação que castiga as crianças quando pensam diferente e bate nelas quando respondem aos adultos.

Quando escolhemos o resultado que queremos para a educação, precisamos escolher também ao que vamos renunciar.

Vale para resultados também: não dá para desejar, ao mesmo tempo, uma criança submissa, que cumpre os objetivos que os adultos têm para ela, e uma criança realizada, feliz com suas conquistas e cheia de sonhos. Desejamos um ou o outro.

Uma vez que a escolha do resultado está feita, é nossa responsabilidade, como adultos, escolher o processo que vai nos levar até lá.

Uma educação que molde crianças submissas, que sigam regras e que aceitem realizar os objetivos de outras pessoas sem refletir profundamente sobre suas próprias opiniões, ainda pode ser uma educação excelente.

Para isso, um cronograma fixo de aulas, provas periódicas e lições de casa repetitivas é perfeito. É o processo que conduz a esse objetivo.

Se buscamos uma educação que ajude as crianças a pensarem por conta própria, elas não podem passar o dia inteiro ouvindo apenas os pensamentos de outras pessoas.

Se desejamos que as crianças tenham iniciativa, elas não podem ser obrigadas a apenas fazer as tarefas que outras pessoas determinaram.

E, se desejamos que tenham criatividade, não podem passar a vida resolvendo questões que só têm uma resposta certa.

Todos os formatos de educação podem ser interessantes. Tenho os meus favoritos, e você pode ter os seus. Precisamos ser honestos conosco e com as crianças e ter consciência de qual é o adulto que desejamos formar com aquele processo.

Vale notar: como família, nem sempre temos a escola que desejamos à nossa disposição. Por isso, em nosso tempo com nossos filhos, podemos ir além da escola, nutrir relações significativas e escolher o que vamos valorizar e incentivar.

Para cada objetivo, uma educação.

O prazer de uma educação difícil

Trabalhei com Literatura para o Ensino Fundamental – Anos Finais – por anos. Vou dividir com você a história de um fracasso.

Ofereci “Dom Casmurro” (Machado de Assis) a uma aluna cedo demais, porque ela leu um conto de Machado e gostou. Ela enfrentou poucos capítulos do livro, exausta.

Dois anos depois, porque uma amiga falou bem do romance, ela perguntou por ele de novo. Estava disponível e ela leu. Foi a obra favorita dela pelos dois anos seguintes. Era a hora certa.

Em um percurso individual de leitura (e de qualquer disciplina), precisamos considerar o prazer e a capacidade. Não adianta forçar o desenvolvimento de uma capacidade se a criança odeia o processo. Mais hora, menos hora, vai travar.

Se alimentamos um pouco o prazer e incentivamos, então, o avanço da capacidade, as coisas mudam. A criança não precisa gostar de tudo sempre, mas precisa gostar o suficiente para querer aprender.