Há semanas convivemos com as angústias da incerteza geopolítica entre Estados Unidos, Israel, Irã e Líbano, além de todos os outros desajustes, que custam dezenas de milhares de vidas e impõem pesados traumas às próximas gerações.
Na filosofia política, encontramos um argumento interessante no prefácio de Michel Foucault ao livro “Anti-Édipo”, de Deleuze e Guattari. Nele, o autor diz que um dos inimigos a que precisamos prestar atenção está dentro de nós mesmos: “… está em todos nós… assombra nossos espíritos e nossas condutas cotidianas… nos faz amar o poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e nos explora.”
Neste momento do mundo, vemos precisamente este inimigo tomando a frente. É claro para muitos que o problema dos estreitos não precisaria acontecer, e que ocorre porque em um indivíduo específico, o inimigo interior tem muita força.
Dentro dele, essa força que “nos faz amar o poder” ganhou grandes proporções, e o levou a criar o estado de coisas em que os estreitos se fecham. Mas se essa força está em todos nós e também assombra nossas condutas cotidianas, cabe perguntar: Em quais relações o nosso amor ao poder se manifesta com mais vigor?4
Se formos honestos na resposta, quase todos chegaremos logo à conclusão de que essa força apresenta-se mais intensamente em nossa convivência com as crianças. É ali, no íntimo da paternidade, maternidade, e até no ambiente relativamente fechado da sala de aula, que a força do amor ao poder exerce sua maior influência. Na relação com a criança, mandamos e desmandamos, proibimos e obrigamos, castigamos, premiamos, e até batemos.
A tudo isso, a criança reage como pode. Mas pode pouco. Às vezes, tudo o que consegue fazer é se fechar, e há pelo menos duas formas da criança fazer isso. Algumas crianças se fecham de maneira mais explosiva. Tornam-se desobedientes (não nascem assim), deixam adultos falando sozinhos, enfrentam as regras que estabelecemos e não conseguem dedicar atenção a nada que nós sugerimos, embora às vezes prestem atenção a algo que interessa a elas.
Outras crianças se fecham silenciosamente. São dóceis, quase passivas. Mas vivem em mundos de imaginação, sem conseguir prestar atenção ao que dizemos e mostramos. Quando tentamos falar com elas, desviam o olhar cuidadosamente e, sob estresse, falam consigo mesmas ou cantarolam. Para elas, aprender pode ser difícil. Crianças que se fecham para os adultos às vezes se fecham para o mundo. Assim como na geopolítica, é difícil se fechar para uma grande potência sem se fechar para todo o resto.
Reabrir os estreitos dá mais trabalho do que fechá-los. Não é rápido, mas é completamente possível.
Podemos começar respeitando as crianças como indivíduos soberanos que precisam de cuidado. Isso nos leva a várias atitudes práticas: Podemos deixar a criança sozinha quando ela desejar ficar sozinha, fazendo o que lhe interessa sem interrupção – e é claro que podemos fazer companhia quando ela desejar companhia. Quando uma criança precisar da nossa orientação, podemos fazê-lo gentilmente, lembrando que ela chegou ao mundo há bem menos tempo do que nós e está aprendendo. Somos uma potência muito maior do que a criança, e por isso temos a responsabilidade de tolerar os seus erros com paciência, mostrar a ela os jeitos certos de fazer as coisas com cuidado, e permitir que ela tente novamente com liberdade.
Talvez um dos aspectos mais importantes disso tudo: Uma potência com grandes poderes precisa ser previsível. Em nossas ações com as crianças, podemos ser generosamente pacientes e previsíveis, e agir da mesma maneira todos os dias, colocando os limites apropriados de maneira repetitiva e estável, estabelecendo rotinas, brincadeiras e rituais que ajudem a criança a saber o que esperar de nós. Se conseguirmos fazer algumas dessas coisas ou, com mais otimismo, todas elas, empregando os poderes do respeito, da gentileza, da paciência, da liberdade e da previsibilidade, veremos que os estreitos se abrirão novamente.
