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Pacoti, o ídolo do campo aos botões

Estava lendo “O Drible”, do Sérgio Rodrigues, quando o celular tocou e, do outro lado, um amigo me pediu para republicar uma crônica que escrevi sobre o Pacoti. Retruco dizendo que já escrevi, mas ele insiste e diz que ele morreu em um 18 de novembro, e a homenagem é justa.

Pacoti era um centroavante e fazia gols de tudo quanto é jeito. Não ficava só na garapa, aguardando a bola para botar para dentro. Forte, corajoso e resistente, tinha virado ditado para o povo cearense: “Peitudo que só o Pacoti”. Foi com essa fama que ele saiu do Ferrim e chegou ao futebol pernambucano.

Durou pouco tempo no Sport do Recife. Os jornais anunciavam que o Vasco tinha contratado um centroavante em Pernambuco. Um “Pelé Branco” para substituir Vavá, que tinha sido campeão do mundo em 1958 e ido para a Espanha jogar no Atlético de Madri. Virou meu ídolo!

Tinha 12 anos e também substituí o Vavá no meu time de botões. Imaginei um botão de casca de coco. Fazer botão de casca de coco é uma tarefa artesanal. Levei um pedaço na sucata do Raul e pedi para traçar uma circunferência de 6 cm de diâmetro. De posse de martelo e talhadeira, o Manoel ia tirando a sobra e dando forma ao botão.

Não é para qualquer um. Tentei algumas vezes e acabava sempre por rachar a casca. O Manoel era um artista e poderia ter sido um escultor. Já adulto, eu li numa revista uma pergunta feita a Michelângelo: como ele conseguia transformar os blocos de pedras em estátuas? O artista respondeu: “Eu vejo a imagem e tiro o resto”.

De posse do círculo de coco, o resto era comigo. Passava horas raspando contra as calçadas de cimento áspero, fazendo bainha e aplainando para que as superfícies superior e inferior ficassem livres das farpas grossas. Nessa fase da construção, o botão ainda não tinha condições de entrar em campo.

Faltava o acabamento. Os últimos passos eram dados pelas lixas. Primeiro a de madeira, para eliminar as últimas arestas. Depois, a lixa d’água nas superfícies e na bainha, para que não pulasse sobre a bola nem houvesse resistência e, quando pressionado pela palheta, se movimentasse em qualquer direção.

Pacoti fazia muitos gols. Leandro, filho de um ourives, me deu uma coroa de rei para colocar no botão. Com o peso do metal, Pacoti ficou lento e mascarado. Não podia recusar o presente e encontrei a saída numa coroa que ficava na carteira do cigarro Minister. Recortei-a e substituí o metal. Livre do peso, Pacoti voltou a fazer gols.