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Ouro do sertão

Obra Mandacaru, em acrílica sobre papel duplex, é de autoria do artista plástico autodidata cearense João Paulo José da Silva. Historiador, trabalha com as linguagens artísticas da xilogravura, monotipia, pintura, escultura em madeira e gravuras experimentais. No instagram, publica no perfil @jp.artesubjetiva

 

Qual a sua lembrança mais marcante da infância? Na minha, teve muita coisa boa e ruim. Assim é com todo mundo, eu acho. Nunca fui criança de brincar muito na rua. Nasci em São Paulo capital, onde vivi até os cinco anos. Já nesses tempos, era perigoso brincar na rua, especialmente nos dias de semana. Corria o risco de ser atropelado, sofrer um rapto ou coisa pior. Por isso, criança, era do portão para dentro.

Eu gostava de ficar olhando pelos buraquinhos das grades do portão miúdo. O muro era baixo, mas eu, com meus cinco anos, não dava conta de pular. Ficava só olhando os carros passando. Como minha mãe é de lá, minha rotina não mudou muito depois que passei a morar em Caucaia, no Araturi, onde passei 30 dos meus 40 anos.

Meu apartamento era pequeno. Então, eu tentava me apoderar ao máximo dos lugares abertos que eu visitava, das paisagens, dos cheiros, das plantas, de tudo. Eu me agarrava às cidades para onde eu viajava para que eu pudesse voltar sempre que eu quisesse, na imaginação. Avistá-las, quando fechasse os olhos. 

Foi assim, me agarrando aos flashes, que fiquei marcada pela dureza de Apuiarés, no sertão cearense. Fui naquele lugar poeirento uma única vez, talvez com uns nove ou dez anos.

Chegamos na casa que nos receberia com o sol alto. Algumas crianças e adolescentes estavam no alpendre debulhando milho. Para mim, uma brincadeira que feriu minhas mãos finas de criança da cidade e logo desisti. 

 

“Coisa fraca é menina da cidade. Qualquer coisa, chora e ainda é lesada. Será que se cria?”, escutei sem querer.

 

Banho era de balde, como em qualquer interior. Só que nesse lugar, em vez de cacimba, a água era do rio. Para trazer, tinha que andar mais de uma hora com os baldes na cabeça.

Descobri isso depois de desperdiçar a terceira caneca de água, acostumada que era à fartura dos chuveiros e mesmo do tanque lá da Jijoca. No interior do meu pai, a gente enchia um tanque grande com a água da cacimba, para tomar banho e lavar roupa. Não tinha problema se derramasse, era até diversão.

Enchi meus olhos de água do carão que eu levei, mas depois entendi. Água é ouro no sertão. Tem que economizar o máximo que puder.

A senhorinha dona da casa, já com mais de 60 anos, era quem andava até o rio para buscar essa água preciosa. Tinha muita razão em brigar comigo. Eu não tinha noção do que era esse trabalho duro.

Foi lá em Apuiarés também que vi um capote pela primeira vez, essa galinha que parece pintada à mão e fala do nosso cansaço, com seu modo de cantar: tô fraco, tô fraco.

Depois desse carão, fiquei fraca mesmo pra chorar e foi o que aconteceu quando eu vi a galinha do almoço sendo morta e tratada para a gente comer.  – “Coisa fraca é menina da cidade. Qualquer coisa, chora e ainda é lesada. Será que se cria?”, escutei sem querer.

O sofrimento e as privações, às vezes, geram gente bruta, incapaz de um carinho. Era o caso dessa senhorinha que me recebeu. Mas quem vai condenar? Cada um dá o que tem.

Não dormimos naquela casa e seguimos viagem de volta para Fortaleza ainda de dia. No caminho, a estrada era muito esburacada, não tinha asfalto. Piçarra. Sei que o carro do meu pai, um Corcel II, deu o prego em Pentecoste. Não aguentou o sacolejo. Acho que voltamos apertados no carro do meu tio, enquanto meu pai consertava.

Entrou para a minha coleção de lembranças. Essa não é boa, mas serviu pra eu ver na realidade o cenário dos meus livros preferidos de hoje, os regionalistas. Das recentes leituras, tem Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende e A Casa, de Natércia Campos.

A crônica foi digitada enquanto eu escutava “Onde canta o sabiá”, do Mastruz com Leite, para dar uma força na inspiração. A música sempre me ajuda a avivar as recordações e era com a trilha sonora dessa banda que a gente viajava de carro na minha infância.