Rolando o feed do meu Instagram, me deparo com um rosto familiar. Não era alguém que eu seguia. Era desses vídeos aleatórios que brotam graças aos deuses do algoritmo. O rosto era familiar, mas diferente. “Conheço essa menina de algum lugar”, pensei. Quando chequei o nome e sobrenome, veio o clique. Era uma amiga de uma vida passada. Alguém que fez parte dos meus anos de solteirice e farras em Nova York, mas com quem eu havia perdido contato. Eu sabia que ela tinha voltado para o Brasil. Sabia que havia se divorciado. Mas nunca mais tive notícias dela.
No vídeo, ela aparece fazendo carinho em um tucano. O pássaro, deitado em seu colo, parecia não apenas confortável, mas entregue ao contato humano. Clico no perfil dela, que tem quase trezentos mil seguidores. Muitas aves, muito verde, e ela numa vibe pé no chão, cabelos ao vento. Cabelos agora castanhos, diferentes do loiro Barbie da nossa época de balada. Entendi que o perfil era sobre um projeto voluntário de reabilitação e soltura de aves resgatadas, do qual ela está à frente. Um projeto que parece lindo e cheio de propósito. Me peguei pensando: “Nossa, quem diria. A Barbie virou ativista.”
Há no meu espanto, é claro, a incorrigível tendência que temos de colocar seres humanos em caixinhas. Andamos pelo mundo catalogando coisas, pessoas e experiências, organizando tudo de modo a trazer ordem e sentido ao que vivemos e sentimos. Com isso, muitas vezes subestimamos a complexidade do outro diante das limitações das nossas próprias expectativas.
A menina de vinte e poucos anos que consumia fast fashion como se não houvesse amanhã agora lidera projetos que defendem os animais e a natureza. E que bom foi ter me deparado com o perfil dela e ter sido lembrada do quanto somos capazes de mudar. A versão dessa pessoa hoje é, para mim, uma completa desconhecida, e isso não é ruim. É prova concreta de que cada década vivida traz infinitas possibilidades do que podemos ser e fazer.
O lembrete inesperado veio em um momento oportuno. Era fim de ano, aquele período entre o Natal e o Ano Novo em que a vida parece suspensa e o tempo é senhor de ninguém, destituído de horários e obrigações. Uma espécie de melancolia marinava no meu coração. Uma mistura de apreensão sem nome, saudade de casa e aquele tipo de introspecção que a chegada de um novo ano demanda: o que você fará com o resto da sua vida?
No recesso do tempo, sem a proteção da rotina, a ansiedade encontra espaço para crescer. A minha, naqueles últimos dias de dezembro, corria solta, sem as rédeas de uma racionalidade já cansada. E, quando me aventuro pelas esquinas mais sombrias da minha psique, encontro ali um tipo de luto antecipado. A trilha sonora dos meus devaneios desenfreados é quase sempre a mesma: Bonnie Tyler, Total Eclipse of the Heart. “De vez em quando, eu fico um pouco nervosa com a sensação de que os melhores anos já passaram…”.
Você não? É o tipo de medo sorrateiro que brota às três da tarde de uma terça-feira gelada. Medo de estar vivendo o auge e de que o futuro traga vazios com os quais eu não queira ou não saiba lidar. É o oposto do “era feliz e não sabia”. É um ressonante “sou feliz, sei que sou, e tenho medo de não ser mais”.
Foi bem ali, em uma das tentativas falidas de adormecer anseios com o deslizar dos dedos, que me deparei com o vídeo do tucano e com a realização de que a única coisa realmente garantida é a mudança. Nada permanece o mesmo por muito tempo — nem as pessoas, nem mesmo os medos.
Um tempo atrás, ouvi uma frase daquelas que batem e ficam: “você ainda não conheceu todas as pessoas que vão te amar”. Imigrante que sou, vivo a solidão crônica de quem está fadada a existir em certa incompletude. A falta me acompanha. E, como alguém que enxerga a vida como quem olha através de uma janela estando do lado de fora, é reconfortante imaginar que ainda posso colecionar o amor de outras pessoas, hoje estranhas para mim, neste país que escolhi chamar de casa.
E, seguindo essa linha de pensamento, imagino que o contrário também seja verdadeiro. Eu ainda não conheço todas as pessoas que vou amar. Quanto espaço ainda existe no meu coração para ser ocupado pela afeição que ainda sentirei por gente que ainda não conheço? E as versões de mim mesma que me são, por ora, desconhecidas não seriam também merecedoras da minha afeição? Afinal, se me considero capaz de amar o outro ainda estranho, preciso também admitir a possibilidade de vir a amar versões de mim mesma que, em algum momento, me causem estranheza.
Dezembro se tornou janeiro, trazendo um ano novinho na virada da página do calendário. A melancolia foi dando lugar à esperança, não no clichê do “ano novo, vida nova”, mas na confiança de que há em mim a capacidade de suportar incertezas e a curiosidade de abraçar mudanças. Este ano é também o ano em que faço quarenta. Quantas versões de mim ainda me esperam nessa nova década? Pergunto com a curiosidade de quem permanece aberta às possibilidades, não com o otimismo ingênuo de quem acredita que “só melhora”.
Viver por mais tempo implica acumular cicatrizes, talvez o preço inevitável do autoconhecimento. Não há como colecionar experiências sem também me deparar com novos medos, novas dores, novas ausências. Coisas que um dia pareceram dadas como certas e bem resolvidas podem ser reviradas na bagagem ao longo do caminho.
Ainda assim, essas versões, esses vazios e essas perguntas sem resposta também não serão definitivos. De definitivo, apenas a aceitação do que sou neste ponto exato do trajeto. O vídeo quase fortuito do tucano, dócil e tranquilo no colo de uma antiga amiga, aplacou a minha angústia ao colocá-la em perspectiva diante da constatação de que a vida continua a se rearranjar. Neste início de ano, às vésperas de uma nova década, sigo sem promessas grandiosas, apenas com a disposição de permanecer atenta ao que ainda não conheço, nos outros e em mim.
