Tenho pensado cada vez mais sobre o tempo. Não o tempo dos relógios, mas o tempo das pessoas, aquele que muda hábitos, reorganiza rotinas, redefine prioridades. Um tempo que não é linear, nem previsível, e que exige da arquitetura algo além do imediato: exige escolhas que façam sentido hoje, mas que continuem funcionando amanhã.
Porque o tempo molda. E a arquitetura precisa responder. Mais do que isso até: precisa sobreviver bem a ele. Responder hoje passa por entender que as pessoas mudam o tempo todo.
Mudam suas rotinas. Mudam suas relações com a casa, com o trabalho, com a cidade. Mudam suas expectativas sobre conforto, funcionalidade e bem-estar. E isso muda a forma de projetar. Mas também muda a forma de escolher.
Uma arquitetura que acompanha o tempo depende de decisões práticas, muitas vezes simples, e que fazem diferença ao longo dos anos.
É, por exemplo, optar por uma planta que permita integrar ou separar ambientes com facilidade, em vez de espaços engessados.
É escolher materiais duráveis e de fácil manutenção, que envelheçam bem, em vez de soluções apenas estéticas e datadas. É pensar em ventilação cruzada e iluminação natural, reduzindo a dependência de sistemas artificiais ao longo do tempo.
É evitar circulações apertadas ou mal resolvidas, que dificultam a rotina no dia a dia ou a mudança nessa rotina.
No fim, fazer escolhas que sustentem a vida real.
Ao longo dos meus 26 anos de trajetória, fui entendendo que projetar é organizar o caos, dando a ele forma, direção e sentido. E isso só se mantém quando as decisões são consistentes.
Quando olho para Fortaleza, já próxima dos seus 300 anos, vejo uma cidade que traduz bem esse movimento. Que cresce, transforma-se, reinventa-se. E que pede uma arquitetura capaz de acompanhar esse ritmo.
Antes que alguém pense que tudo isso é só um discurso bonito, afinal, estamos em pleno dia 1º de abril, vale dizer: não é pegadinha. Porque, no fim, a pergunta que fica é direta: as escolhas que estamos fazendo, hoje, vão facilitar ou dificultar a vida daqui a alguns anos?
A arquitetura que permanece não é a que resiste ao tempo por acaso. É a que foi pensada para lidar com inteligência. E isso é projeto.
