Minha mãe nunca foi daquelas cozinheiras assíduas. Médica, ginecologista e obstetra, dedicou mais de 40 anos da vida a cuidar de outras mulheres, trazendo filhos ao mundo, zelando pelo seu lar. Uma mulher viva, moderna, à frente do seu tempo — no jeito de vestir, de falar, de pensar e de exercer a profissão.
Mas, quando tinha tempo, ela cozinhava. E cada vez que isso acontecia, nascia um prato que era a cara dela. Um bolo de milho que perfumava a casa e usava 100% do insumo, sem perder nada. Uma canjica cremosa que a gente comia de colher, direto da panela, o “queimadim”, sabe?! Uma salada de frutas que nunca dava tempo de gelar porque já tinha fila esperando.
Minha mãe é paraibana, e das raízes dela veio um sabor que me atravessa até hoje: a farofa d’água.
Simples e marcante, feita com farinha de mandioca hidratada, cebola roxa, coentro e bastante manteiga da terra.
Não vai ao fogo — é uma mistura viva, cheia de textura, que lembra o gosto do sertão e o calor da cozinha nordestina
Foram anos sem provar, mas o sabor ficou guardado na memória, intacto. Eu lembro da panela, da colher, da cor da farofa e até do jeito como ela misturava os ingredientes. São lembranças de mais de vinte anos, que agora voltam à tona com força, me atravessando outra vez.
Hoje, aos 32 anos, é a minha vez de tentar reproduzir esse prato.
Talvez não saia exatamente igual, talvez venha com a minha identidade, com o que aprendi nesses anos de estrada, de cozinha, de vida. Mas é bonito perceber como essa receita — simples e cheia de história — segue viva em mim.
Minha mãe segue fazendo as comidas que a gente pede, diferente de antes, hoje com mais tempo, porém carregando o mesmo sabor.
Porque as receitas que atravessam gerações não são só aquelas escritas em cadernos antigos.
São as que atravessam o tempo, a memória e o coração.
E essa farofa d’água, para mim, é exatamente isso: um sabor que me pertence e me atravessa.
