Toda vez que volto ao Maranhão, eu sei exatamente para onde quero ir: para a praia, em direção à barraca Estrela d’Alva. Não é apenas por causa do mar ou do vento forte que sopra na beira d’água. É por um desejo que começa antes mesmo de eu chegar: o de sentar à mesa e me reencontrar com o sabor da caranguejada.
Ali, o prato chega fumegante, preparado com o casco limpo do caranguejo, apenas a parte mais nobre da carne. Vem envolto em um molho cheio de temperos e verduras, acompanhado de arroz de toicinho, pirão, farofa e vinagrete. É assim no Maranhão: cada refeição é completa, feita para dar sustância, para alimentar corpo e alma. É o arroz sempre presente, a farinha que nunca falta, o cuidado de transformar cada prato em banquete.
Esse caranguejo não é apenas uma comida. É um ritual de pertencimento. A cada garfada, eu sinto minhas raízes mais vivas. É como beber da fonte: renovar minha identidade, me reconectar com a cultura que me formou e com a terra que me fez. É estar no Maranhão, mas também é estar em mim mesma.
Morar no Ceará me deu novas experiências, novos sabores e outras formas de olhar para a gastronomia. Mas é no retorno ao Maranhão que eu encontro a confirmação de quem sou. Carrego no prato minhas raízes, minha história, meu Nordeste. E percebo que, mais do que matar a fome, essa comida me devolve origem, força e pertencimento.
No fim, talvez seja essa a maior riqueza da gastronomia: não apenas alimentar, mas contar histórias. Histórias de terra, de família, de cultura. Histórias que atravessam fronteiras e continuam vivas no sabor de um caranguejo servido à beira-mar.
