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O reencontro com o senhor da rua Padre Mororó 

No dia mais chuvoso desse fevereiro de 2025, procurei no Centro um abrigo para pedir um carro por aplicativo. Meu ônibus mudou o caminho porque as vias estavam todas alagadas. Era quarta e para piorar a situação, ainda tinha a feira da madrugada.

Ao adentrar a Padaria Globo, a mais antiga de Fortaleza, embora totalmente descaracterizada, eu vejo o seu Geroldo, o senhor da rua Padre Mororó sobre quem eu falei em outra crônica. Ele tomava café com um amigo e tinha uma sacola com alguns pães em cima da mesa.

Me apresentei e ele lembrou da minha fisionomia. Perguntei como estava e porque andava sumido, se tinha passado uns tempos fora, visitando os filhos.

Ao contrário do que eu pensava, ele sempre continuou no mesmo lugar. Só andava saindo pouco de casa para evitar problemas. O portão que eu estranhei ter sido retirado antes da pintura da casa havia sido roubado na cara dura durante uma madrugada. Por isso, ele passou a dormir em uma rede na sala. Para mostrar que a casa era habitada, pelo menos por enquanto.

Um pouco desgostoso, me confidenciou que a casa bonita dos anos 1940 e parecida com a do seriado Éramos Seis estava perto de ser colocada à venda. Com duas salas, vários quartos e banheiros, era grande demais para um homem idoso e sozinho.

Antes, até que não, quando a mãe e o irmão moravam com ele. Agora, era apenas ele, porque os dois já tinha partido para o outro lado.

Enquanto eu esperava o carro chegar, deu tempo de contar que a filha mais velha morava em São Paulo e não no Rio de Janeiro, como eu pensei. Era juíza e tinha um filho, médico e outro, advogado. Além dela, eram mais seis filhos, de cinco mulheres diferentes.

Perguntei porque casou tanto e disse que, geralmente, os casamentos não duravam após o nascimento dos filhos, quando começavam as brigas e ele não entendia muito bem a razão. Apenas duas das ex-mulheres tinham mais de um filho. No entanto, mantinha uma boa relação com todas e frequentava as suas casas. O segredo? Ele nunca foi bígamo, me contou. Mesmo tendo se casado tantas vezes, sempre preferia terminar um relacionamento antes de começar outro. Os filhos também mantinham sempre contato e eram bastante unidos.

Além de cantor de cruzeiro, seu Geroldo também foi empreendedor do ramo turístico nos tempos de uma Jericoacoara mais selvagem, nos anos 1990, quando montou uma pousada. Lá, se apaixonou por uma moça e teve seu filho caçula, hoje, com mais de 30 anos, o Ringo Starr. “Sou fã dos Beatles”, disse seu Geroldo. Trocamos telefones e desejei boa sorte na venda da casa. Segui para o meu trabalho e prometi contar sobre o nosso encontro neste texto. Fiquei feliz de saber que ele estava bem e permanecia na mesma rua. Inclusive, pretende continuar na rua Padre Mororó, em um quitinete, quando se desfizer do imóvel.

A alegria de viver demonstrada no áudio que me enviou para eu salvar o seu contato iluminou o meu dia chuvoso. Vida longa e saúde ao senhor da rua Padre Mororó!