Nos estudos da infância, há uma sigla que arrepia os cabelos da nuca: EAIs. Ela trata das Experiências Adversas de Infância, acontecimentos marcantes para a criança, de forma negativa, que podem gerar traumas ou estresse prolongado, moldando a saúde física e mental, e distorcendo a personalidade humana.
O psiquiatra que cuidou das crianças de Columbine passou a carreira trabalhando com adolescentes e adultos cujas infâncias explicavam seus comportamentos desafiadores. Recentemente, com a colaboração de Oprah Winfrey, Bruce Perry publicou O que Aconteceu com Você?, um livro sobre como os sofrimentos dos primeiros anos afetam o resto da vida de todos nós.
Agora, vou te contar uma história real:
Era uma vez um garotinho que nasceu com o mesmo olhar brilhante de todas as outras crianças do berçário, mas desde cedo apanhou, sofreu humilhações de todo tipo, foi abandonado pela mãe durante um período da infância e torturado pelo pai até a adolescência. Como estratégias de defesa, ele se tornou um pouco agressivo, e nem sempre falava a verdade. Além de tudo, o pai do garoto era alcoólatra. Mesmo assim, ele escolheu não beber quando se tornou adulto e conseguiu se tornar um empresário de sucesso no ramo imobiliário.
Mais uma história real:
O menininho nasceu. Era o terceiro irmão. O primeiro morreu bem novo, e o segundo morreu de fome, mas ele, o terceiro, sobreviveu. Quando nasceu, havia um cerco ao redor da cidade. No final do cerco, a população da cidade havia se reduzido de 3 milhões e meio para 700 mil, porque havia fome e violência. O garotinho lidava com a depressão dos pais e pulou de casa em casa, ora com os pais, ora com os avós, para fugir da violência do padrasto. Por sorte, um professor acreditou no potencial do menino, e outro ensinou Judô a ele, dando ferramentas para que ele alcançasse bastante projeção quando adulto.
A primeira história é de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. A segunda é do presidente da Rússia, Vladimir Putin.
Podemos olhar para o mundo com uma lente adultista, esquecer que a vida começa cedo e que os primeiros anos têm um impacto desproporcional na vida de todos nós. Ou podemos lembrar.
Os acontecimentos da infância não fazem necessariamente as pessoas invadirem países estrangeiros e assassinarem imigrantes, mas, de acordo com os estudos dos últimos quarenta anos sobre Experiências Adversas de Infância, as chances disso ocorrer aumentam muito com sofrimentos graves nos primeiros anos da vida.
Talvez você tenha filhos ou alunos. Ou pode ser que tenha sobrinhos, netos ou vizinhos pequenos.
Independente de sua coragem revolucionária, de sua esperança para o futuro ou de sua participação na luta para mudá-lo, há formas de construir a paz que estão nas mãos de cada um de nós.
Se estivermos presentes na vida das crianças, garantirmos as suas necessidades físicas e escolhermos uma forma pacífica de educar, com conversas, exemplo e cuidado, em lugar de agressão e violência, lançaremos sementes de uma paz duradoura.
É possível que não vejamos as consequências disso para o mundo, assim como os pais de Trump não o viram invadir a Venezuela, mas podemos acreditar que aquilo de bom que fizermos a nossos filhos os acompanhará por toda a vida. Para semear a paz em tempos de guerra, precisamos começar pequeno.
