Existe um novo luxo silencioso surgindo — e ele não mora em restaurantes estrelados, ingredientes caros ou experiências mirabolantes.
O novo luxo, de verdade, é tempo.
Tempo para sentar, respirar, mastigar devagar. Tempo para estar à mesa sem pressa, sem notificações, sem a sensação de que o mundo está sempre correndo um pouco mais rápido do que a gente. E isso tem tudo a ver com gastronomia.
Porque, no fim das contas, comer sempre foi mais do que a refeição em si. É sobre presença. Sobre entrega. Sobre permitir que os sabores contem uma história, que a conversa flua, que a memória se crie.
Só que, nos últimos anos, a gente se acostumou a comer acelerado: almoço de pé, jantar respondendo mensagem, café tomado entre um compromisso e outro.
E aí, quando chega o fim do ano — esse turbilhão de encontros, entregas, prazos, confraternizações — o contraste fica ainda mais evidente.
Por isso, eu tenho observado e sentido na pele o valor que existe em desacelerar na mesa. Em esperar a panela apurar e “tomar gosto”, o cheiro subir, em montar o prato com calma, mesmo que ele seja simples.
Em perceber que aquele momento é único — e que comida, quando feita ou compartilhada com tempo, ganha outro sabor.
Comer sem pressa é quase um manifesto. É dizer para si mesma: “eu mereço viver este momento plenamente”. Pode ser um café da manhã mais longo num domingo ou, no meu caso, nas segundas. Uma tapioca feita com carinho e queijo coalho.
Um almoço caseiro que não precisa impressionar ninguém — só nutrir o corpo e a alma ou até uma escapadinha rápida para comer à beira-mar e ver a vida acontecendo com outra velocidade. Esse é o luxo que está ao alcance de todo mundo e talvez seja por isso que ele seja tão precioso.
Às vezes, o que a gente mais precisa não é de um prato complexo — é de tempo para sentir.
E, no fim das contas, gastronomia também é isso: presença, pausa e um pouco mais de doçura para o nosso dia.
