Menu

O nome dela é Gal e o dele Boldrin

Não sei se vocês se lembram de ter ouvido no rádio ou visto na TV em 1982, aquela voz afinada e estridente cantando Meu Nome é Gal num dueto inesquecível com o guitarrista argentino Victor Biglione – roubava a intensa crítica social subliminar da letra da canção de Roberto e Erasmo Carlos.

Quem não assistiu àquela garota baiana tocando violão com acordes dissonantes num banquinho com as pernas abertas e as coxas de fora? Gal, a menina branca de nariz arrebitado, olhos verdes e tímida integrou entre 1967-68 o movimento Tropicália ao lado de Caetano, Gilberto Gil, Tom Zé, Capinam, Rogério Duprat, Mutantes e outros. Com os dois primeiros exilados em Londres, a garota segurou a barra e a crítica cotidiana pelo comportamento e as roupas transgressoras tropicalistas que usava.

Antes, em 1964, a convite de Piti, Gal participou da peça-concerto Nós, Por Exemplo, na semana de inauguração do Teatro Vila Velha. Piti, não universitário, ficou meio excluído do grupo e aportou em Fortaleza influenciando os nossos artistas locais. Em 1967, aconteceu a invenção da MPB, após o III Festival de Música Popular Brasileira organizado pela TV Record. Em 1º lugar, Ponteio, de Edu Lobo e Capinam; em 2º lugar, Domingo no Parque, de Gil; em 3º lugar, Roda Vida, de Chico Buarque, e em 4º lugar, Alegria, Alegria, de Caetano Veloso. Pois é, além da invenção da sigla MPB, a apresentação dos baianos com conjuntos tocando guitarras elétricas gerou a experimentação para o surgimento do Tropicalismo.

Gal é cria desse movimento de contracultura – uma espécie de Semana de 1922 utilizando-se de instrumentos estrangeiros, mas com temas, palavras e uma estética local. O modernista Mário de Andrade foi o autor preocupado com essa ideia de brasilidade – a moda-viola como representação nacional-popular na música. Rolando Boldrin parece beber dessa fonte. Que saudade do programa Som Brasil nas manhãs de domingos.

Aqueles artistas – violeiros, cantores, poetas, contadores de causos que nos revelavam a maravilha, a originalidade e a diversidade da cultura brasileira, hoje tão maltratada. Quantas vezes marejei os olhos com as histórias dos causos e a interpretação do Boldrin. Uma semana sem Gal Costa, sem Rolando Boldrin e sem Roberto Guilherme, o sargento Pincel e sua interpretação cômica convincente que roubava a cena.

Deixe um comentário