Se a escola é muito importante para nós, pais, em algum momento nossos filhos vão fracassar na escola. Se desejamos que eles tenham bons namorados e namoradas, podemos nos preparar para uma surpresa difícil. E se tudo que queremos é que eles sejam felizes, vamos enfrentar o fracasso mais difícil de todos quando descobrirmos que ninguém é completamente feliz na maior parte do tempo. Fracassos assim não acontecem porque essas coisas são importantes para nós.
Mesmo que não fossem, nossos filhos iriam fracassar em tudo isso. Porque eles são humanos, e é isso que humanos fazem. O começo da palavra humano (hum-) é uma raiz latina que significa pó da terra, chão. Nós nunca vamos fracassar em ser o pó da terra. Somos parte do mundo. Em nossa natureza nós não temos como errar. Mas nem todas as plantas que brotam da terra crescem e frutificam. É assim com os nossos atos.
Não erramos naquilo que somos. Apenas em todo o resto. Agora, de volta a nossos filhos… Por mais amor que a gente sinta por nossa prole, eles também são apenas humanos. Como você e eu, fracassarão.
Há dois tipos de fracasso disponíveis para eles. O primeiro é ótimo, o segundo é devastador.
Crianças e adolescentes podem fracassar em tarefas, objetivos e esforços. Nesse caso, está tudo bem. Se seu filho fez uma prova e se saiu mal, a prova dele foi um fracasso, não ele. Se sua filha participou da competição de robótica e ficou em último lugar, a participação dela foi um fracasso, não ela. Se seu filho se esqueceu de colocar comida para o peixe por dois dias, a estratégia dele para cuidar do bichinho é um fracasso. Não ele.
O fracasso em que podemos fazer um círculo ao redor do erro e dizer: “Errei aqui.” é maravilhoso. Ele nos permite melhorar. A psiquiatra e educadora Maria Montessori ia mais longe, e dizia que apenas o fracasso nos permite melhorar. Mas isso só vale para o primeiro tipo. No segundo tipo de fracasso, nossos filhos fazem uma confusão. Esquecem de limpar o quarto ou mentem para o melhor amigo e, em vez de fazer um círculo em volta do erro e dizer: “Errei aqui.”, eles dizem: “Sou um erro.”
A pesquisadora Brené Brown nos informa: Essa percepção de fracasso faz nascer um poço de vergonha que pode tomar conta de toda a vida. Nesse caso, o verdadeiro fracasso não foi mentir para o melhor amigo, ou deixar de limpar o quarto. Aqui, o fracasso está na incapacidade de fazer um círculo ao redor do erro e dizer: “Errei aqui.” Esta é a habilidade que precisa ser desenvolvida primeiro. Não é limpar o quarto, nem falar a verdade. Primeiro, eles precisam aprender a enxergar o erro como um acontecimento, e não como parte de sua própria natureza.
Vamos relembrar: Somos humanos – pó da terra. E ninguém erra em ser parte do mundo, todos nós somos. Alguns de nossos atos brotam e frutificam, outros murcham e voltam à terra. Nada muda nossa natureza, que é perfeita. Só precisamos tentar de novo.
Eu Achava que Só Acontecia Comigo
Brené Brown é pesquisadora na Universidade de Houston, no Texas. Ela passou os últimos vinte anos pesquisando coragem, vulnerabilidade, vergonha e empatia. Tudo o que Brown escreveu é bom, e é difícil recomendar um livro só. Mas para começar, escolha A Coragem de Ser Imperfeito.

O livro é uma obra-prima que muda a vida de quem lê. Não é uma licença para errar, mas uma nova forma de enxergar todas as nossas ações, com mais coragem, amor e disposição para tentar de novo. O livro foi baseado em milhares de entrevistas feitas por Brown e sua equipe.
Se você quiser entender um pouquinho mais do pensamento dela antes de ler, pode começar pelo especial da Netflix O Chamado da Coragem, ou pelas palestres do TED, disponíveis no YouTube, O Poder da Vulnerabilidade e Escutando a Vergonha. Aproveite!
