Despertar após o sono curto e entrecortado por descargas de motos e de buggys passando rente à janela do quarto alugado do pequeno restaurante não era difícil. Era dia de tomar um banho de mar diferente. O primeiro da vida antes do sol nascer. Em jejum, como o que Clarice Lispector tomava com seu pai na Olinda da sua infância.
Pulei da cama rapidamente, vesti o biquíni, escovei os dentes, bebi água e segui novamente para a praia de Jericoacoara. A mesma que três anos antes me recebeu para um amanhecer. O prenúncio de uma revolução em mim.
Em 2022, pedi paz em cima daquela duna. Fechei os olhos, deitei no chão e orei. Escutei o som dos pássaros, festejando o amanhecer. A Lua cheia se despedia no mar, enquanto o sol saía nas minhas costas.
No percurso novo, alonguei o corpo olhando para o mar antes que o sol despontasse. Senti os tendões esticando, as tensões se soltando aos poucos. Deitei na areia molhada e dura da beira do mar. Recordei a oração antiga. Estava acontecendo aquela paz que pedi agora. Meu corpo todo era uma prece, junto com a natureza ao meu redor.
Andei para dentro do mar calmo de Jeri. Esse mar que nunca conheci assim. Gelado, tranquilo, em pequenas piscinas. O silêncio. O sal nos lábios, ardendo nos olhos. O corpo acostumando à temperatura. A água amorna, a vontade é ficar de molho, com os olhos fechados. A tranquilidade é tanta que é possível boiar.
Como eu pude nunca ter visto esse mar desse jeito? Mesmo tendo visitado essa praia tantas vezes? Eu não entendo. Lembro do mar de Almofala e compreendo que a hora chegou. Há um tempo certo para cada coisa debaixo do sol.
O mar de Jeri tem uma energia diferente, por isso tanta gente não consegue sair daqui. Vem à mente o banho que a protagonista do livro de Lorena Portela tomou nessas águas no livro Primeiro eu tive que morrer. Me dei conta da minha própria transformação. Agradeço a Deus, numa prece que se repete. Pela paisagem, pelo mar, pela companhia.
Estou em jejum, cabelo salgado grudado na cabeça, corpo salgado, assim como a bolsa, os óculos escuros. Tudo em mim é água, sal e iodo. O sol há muito havia nascido, a luz favorece as fotografias. A fome avisa que é hora de retornar à vila e quebrar o jejum. Agora, eu sei o gosto do mar de Jeri. A experiência está completa. O tempo de viver chegou pleno e cheio de ideias, floresce como a primavera de setembro. A vida e seus presentes inesperados. Esse, eu não planejei receber.
