Ainda estávamos na pandemia. Eu dava aulas on-line e, certa noite, depois de terminar a última aula, por volta das 21h, comecei a ouvir risadas vindas do quarto do meu filho. Ele e a mãe estavam lendo um livro que havia chegado por meio de um programa de assinatura de livros infantis. O título era Os Caras Malvados Perguntei o motivo de tanta risada. Meu filho, que tinha oito ou nove anos, respondeu:
“As bundas! São muitas bundas!”
Ele virou o livro para mim e mostrou a página. No terceiro volume da coleção, um enorme polvo extraterrestre tinha nádegas nas pontas dos tentáculos. Em vez de devorar os personagens, o monstro os prendia entre as nádegas e soltava flatulências extraterrestres. Era exatamente o tipo de humor capaz de fazer uma criança daquela idade morrer de rir.
Até então, meu filho gostava de livros, mas a leitura era principalmente uma atividade que fazíamos juntos. Ele ainda não tinha o hábito de procurar livros por conta própria. Os Caras Malvados mudou isso.
Depois daquele episódio, ele passou a procurar outros volumes da coleção e, posteriormente, outros livros engraçados. Aos poucos, seu interesse se ampliou para diferentes gêneros. Vieram livros literários, informativos e histórias mais complexas. O ponto de partida, porém, foi uma página cheia de nádegas e um extraterrestre flatulento.
Algo semelhante aconteceu com uma aluna. Aos dez anos, ela me disse que não gostava de ler. Em vez de tentar convencê-la imediatamente de que estava errada, perguntei de que tipo de filme ela gostava. Ela respondeu: terror.
Encontrei, então, uma coleção de livros de terror para crianças. Eram histórias simples, que ela conseguia ler aos poucos, apenas duas ou três frases por vez. Ela leu toda a coleção. Depois, passamos para ficção científica, aventuras e mistérios.
Seis meses depois, ela chegou à escola abraçada a um livro grande e ilustrado. Parou diante de mim e perguntou:
“Lembra que quando eu cheguei aqui, eu não gostava de ler?”
Eu lembrava.
“Pois é. Agora eu gosto.”
Talvez esse seja um dos maiores desafios de quem tenta formar leitores: entender que nem sempre o livro considerado mais adequado é aquele que despertará o interesse de uma criança. A literatura pode ensinar valores de maneira explícita. Mas também pode ensinar pelo humor, pela curiosidade, pelo estranhamento ou simplesmente pelo prazer de acompanhar uma boa história.
Há livros moralizantes e livros irreverentes. Há palavrões, monstros, situações absurdas e personagens que fazem coisas que provavelmente não colocaríamos como exemplo de comportamento. E tudo isso pode fazer parte da formação de um leitor.
A literatura não precisa ensinar uma lição de maneira explícita para transformar quem lê. Às vezes, o primeiro aprendizado é muito mais simples — e talvez o mais importante de todos:
ler vale a pena.
