Quando busco pelas memórias mais antigas de músicas e leituras, eu lembro da companhia do único irmão da minha mãe. Antes dos meus cinco anos, ele pegava na minha mão e levava até a banca de revistas mais próxima, a de um japonês na Avenida Jabaquara, pertinho da estação do metrô da Praça da Árvore, zona sul da capital paulistana.
Mesmo assinante de várias revistas, meu tio ainda frequentava as bancas. As suas edições preferidas eram as que formavam livros ou tinham brindes. Era um pequeno paraíso para a menina curiosa que eu fui.
No maleiro do guarda-roupas do seu quarto, a coleção de revistas com peças de aviões em miniatura dividia espaço com gibis e várias caixas de jogos de botão que ele mesmo customizava. Também aprendi a brincar, inclusive.
Com muito desprendimento, meu tio me presenteou com alguns gibis da sua coleção para que eu folheasse e guardasse para começar minha pequena coleção também. Essas revistas, aliadas aos caderninhos com as lições de letras e números da minha mãe, ajudaram a ser alfabetizada antes de ir à escola. Foram presentes do meu tio também os gibis da Moranguinho e da Xuxa que, pela raridade, hoje valeriam uma fortuna. Se perderam na mudança para o Ceará, infelizmente.
O seu quarto era um santuário. Ali, cuidadosamente plastificada e catalogada, estava a sua coleção de discos de vinil e o seu aparelho de som. Nada de poeira ou marca de dedos. Tinha o maior cuidado com cada ítem, cada botão, cada tecla, a agulha da vitrola…
Fã do rock progressivo, lembro bem da sensação de ouvir aos domingos as canções do Dark Side of the Moon, do Pink Floyd e do medo que sentia daqueles sons diferentes e experimentais quando ele escutava música mais alto e eu conseguia ouvir da minha casa, porque éramos vizinhos.
Depois da minha vinda para o Ceará, passamos a trocar cartas para que eu treinasse a escrita e a leitura. Minha avó, que morava com ele, ficou tão triste com a minha partida que ficou com o coração fraquinho e precisou colocar um marca-passo.
De dois em dois anos, nos encontrávamos. Na nossa primeira visita, ele me ensinou a gostar de revistas de colorir. Na segunda, trouxe de presente de Natal uma boneca que chorava, igual a que meu pai também tinha me dado de aniversário e fiquei com gêmeas, morrendo de medo de isso algum dia me acontecer na vida real porque ele mesmo tinha sido gêmeo do tio Andrés, que morreu bebê.
Conforme eu crescia, as conversas ficavam mais profundas. Lembro de ter perguntado se ele acreditava em fantasmas ou vida após a morte. Sem se aprofundar muito, porque eu ainda era uma menina de dez anos, ele me orientava a não focar nisso, para não ficar com medo. Porque o que acreditamos pode se materializar. Na volta dessa viagem para casa, contrariando o seu conselho, fui cascaviar o livro das profecias de Nostradamus do meu pai e começou meu pavor pelo fim dos tempos e não só dos fantasmas e da vida além morte.
Nesses mais de 40 anos de vida, tivemos hiatos de vários anos sem nos falar, mas, hoje, percebo o quão forte é a sua influência no meu jeito de ser. Amo o mesmo estilo de rock que ele, continuo apaixonada pela leitura, não posso ver um gatinho na rua que faço carinho (ele tem sete gatos) e passei tudo que aprendi com ele para os meus filhos.
Canceriano nato, sensível e emotivo, meu tio Edison completou 60 anos nesse 14 de julho. Faz 12 anos que a gente não se abraça pessoalmente, mas sigo reconhecendo em mim e nos meus meninos muito dele. Suas marcas estão para muito além do meu sangue e devem se perpetuar pelas próximas gerações, porque foram passadas adiante. Somos muito agradecidos por essa sensibilidade. Ele é uma criança grande, assim como nós. Vida longa ao meu único tio materno e ansiosa pelo reencontro.
