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O chão da infância

Ao norte do Equador, de onde escrevo estes parágrafos, é inverno. A neve acumulada lá fora já virou gelo. Os dias são frios e curtos, escurecendo entre quatro e cinco da tarde. Sob essas condições, levar meus três filhos para brincar ao ar livre se transforma numa aventura pouco convidativa para esta mãe nascida e criada em terras tropicais.

Quando estamos de férias no Brasil, o desafio se inverte: é lidar com o calor. Entre dez da manhã e quatro da tarde, a realidade de “um sol para cada um”, no interior do Ceará, não é páreo nem para o mais eficiente dos protetores solares. Porque somos, afinal, produtos do nosso meio, o medo que meu marido tem de que as crianças sofram uma insolação quando estamos lá é proporcional ao medo que eu tenho de hipotermia quando estamos aqui. Assim se constrói a dinâmica de uma família multicultural.

Meta: garantir que as crianças tenham contato com a natureza.
Obstáculo: a própria natureza.

Estou, é claro, brincando — mas só em parte.

Uso esse relato para afirmar que, como mãe de três, reconheço perfeitamente as dificuldades de aplicar teorias bonitas à vida real. Alguns anos atrás, li o livro There’s No Such Thing as Bad Weather (ainda não publicado no Brasil; em tradução literal, algo como Não existe tempo ruim), no qual a autora Linda Åkeson McGurk defende a premissa de que não existe clima inadequado para que crianças brinquem ao ar livre — o que existe é roupa inadequada e expectativas equivocadas. Segundo ela, o que realmente limita o brincar fora de casa não é a chuva, o frio ou o vento, mas o medo, o desconforto e as crenças culturais dos adultos sobre clima e segurança.

Na Escandinávia — de onde vem o famoso ditado que dá título ao livro — crianças brincam fora todos os dias do ano. Não porque o clima seja mais amigável, mas porque a cultura é. E a educadora em mim concorda plenamente. É comum ver crianças pequenas tirando sonecas ao ar livre, mesmo em temperaturas negativas. Nos anos em que trabalhei em escola, a regra era clara: a menos que os termômetros chegassem a –10 °C, as crianças iam para o parquinho durante o recreio. Em lugares onde o frio ou o calor extremo fazem parte da vida por boa parte do ano, ou o ano inteiro, a cultura acaba assimilando um estilo de vida compatível com essa realidade. Mas isso não quer dizer que seja fácil.

Além dos desafios impostos pela própria natureza, a rotina acelerada em que muitas famílias vivem também dificulta esse contato, assim como a falta de segurança e de estrutura em muitas cidades. E, se somarmos a isso o uso crescente das telas, que engole horas do dia das crianças, o resultado é uma realidade em que o contato com a natureza se torna cada vez mais escasso. E estamos pagando um preço por isso.

Esse preço aparece nos corpos pequenos: inquietação, ansiedade, dificuldade de atenção, explosões emocionais. Em Last Child in the Woods (no Brasil, A Última Criança na Natureza, Editora Aquariana), Richard Louv dá nome a esse conjunto de fatores: o transtorno do déficit de natureza — não como um diagnóstico médico, mas como um alerta cultural. Louv sugere que parte do que chamamos de “problema de comportamento” é, na verdade, um corpo privado de experiências sensoriais fundamentais.

Vivemos um tempo em que a infância acontece, majoritariamente, entre paredes.
Por medo da violência, da rua, do processo, do imprevisível. Por falta de espaços públicos seguros, verdes e acessíveis. Mas essa não é e não pode ser uma responsabilidade que recaia apenas sobre os pais.

Louv questiona o modelo educacional vigente na maior parte das escolas, que supervaloriza controle e previsibilidade, subestima o corpo e os sentidos e mede sucesso quase exclusivamente por desempenho acadêmico. Ele defende que educar sem natureza é educar pela metade:

“Uma cultura que separa crianças da natureza corta uma parte essencial de sua humanidade.”

Enquanto educadora, poucas coisas me revoltam tanto quanto ouvir mães relatarem que seus filhos perderam o recreio como medida disciplinar. Fico perplexa diante do que isso revela: uma falta básica de compreensão sobre desenvolvimento infantil. O recreio — o tempo ao ar livre, o movimento livre, o contato com outras crianças e com o espaço — é justamente uma das maiores oportunidades de autorregulação que a escola pode oferecer. Especialmente para crianças com desafios de comportamento, foco ou atenção. Retirar dessa criança o tempo ao ar livre só vai desorganizá-la ainda mais.

Para além disso, o contato com a natureza não deveria ser um complemento eventual, mas parte estrutural do currículo escolar. Crianças precisam de experiências diretas, não apenas de conceitos abstratos. Aulas fora da sala sempre que possível, observação da natureza como ferramenta interdisciplinar, pátios mais verdes, parcerias com parques e espaços abertos, projetos de educação ambiental vivencial. Mesmo sendo uma defensora fervorosa da literatura infantil, afirmo sem hesitação: nenhuma criança deveria aprender as partes de uma planta apenas nas páginas de um livro.

As escolas precisam fazer sua parte — e o Estado também.

Não é razoável exigir que famílias, individualmente, resolvam um problema que é estrutural. Cabe ao poder público garantir cidades que acolham a infância: parques bem cuidados, praças seguras, calçadas caminháveis, áreas verdes acessíveis, políticas educacionais que reconheçam o brincar e o contato com a natureza como necessidades do desenvolvimento, e não como luxo ou recreação supérflua. Investir em natureza urbana, em espaços públicos vivos e em escolas que respirem não é gasto — é política de saúde, de educação e de futuro.

Se queremos crianças mais reguladas, mais atentas, mais criativas e mais humanas, precisamos parar de tratá-las como se pudessem se desenvolver isoladas do mundo real. A infância não pode continuar confinada. Nem por medo, nem por descuido, nem por omissão coletiva.

No entanto, reconhecer esse cenário não nos exime, enquanto pais, da responsabilidade que nos cabe no que diz respeito às nossas escolhas cotidianas. A ausência de natureza não acontece apenas por fatores externos e estruturais; ela também se instala por um empobrecimento interno da rotina. Tudo precisa ser rápido, eficiente, limpo, produtivo. E a natureza é exatamente o oposto disso. Ela é lenta, imprevisível, repetitiva, sensorial. E é justamente por isso que ela regula.

A rotina corrida dos adultos tem transformado o “fora” em exceção e o “dentro” em regra. As demandas incessantes e a obsessão com produtividade nos fizeram esquecer que nós, seres humanos, funcionamos em ritmo, em ciclos e em estações, assim como a natureza. Há tempos de expansão e de recolhimento, de movimento e de pausa. Isso é especialmente importante na infância. Quando desconectamos crianças da natureza, tiramos delas não apenas o espaço físico do brincar, mas também a referência viva de ritmo e alternância.

Esse afastamento pode ser remediado com escolhas mais conscientes, mesmo em famílias que moram em cidades grandes e vivem agendas cheias. Trazer a natureza para perto não exige grandes projetos nem intenções pedagógicas elaboradas. Exige, sobretudo, intenção, um pouco de criatividade e a permissão para a sujeira. Afinal, toda criança precisa de uma boa dose diária de vitamina S.

Aqui vão algumas sugestões práticas:

Trazer um pouco de natureza para dentro de casa. Um vaso de ervas na janela da cozinha ou uma planta na sala já fazem diferença. A criança pode participar dos cuidados, observar as mudanças, acompanhar o crescimento. Quem aqui nunca plantou um feijãozinho no algodão?

Ter uma caixa de areia em casa. Mesmo quem mora em apartamento pode ter uma caixinha com tampa na varanda. A criança não precisa sentar dentro: basta tocar, cavar, transferir a areia. Dá para colocar bichinhos de brinquedo, montar um pequeno habitat, acrescentar pedras e folhas. Ao terminar, é só fechar a tampa e guardar para brincar outra vez.

Caminhar sempre que possível. Será que precisamos sempre usar o carro para ir à escola ou ao mercadinho da esquina? Uma caminhada pode ser uma experiência riquíssima para a criança. Ela observa as árvores, repara no céu, nas nuvens, na luz. E, se esse caminho for feito todos os dias, o que muda ao longo dos meses?

Não ter medo da chuva. Diferente do que nossas avós diziam, gripe é causada por vírus transmitidos de pessoa para pessoa, não pela chuva. Sempre que possível, deixe a criança brincar na água, pular em poças, sujar-se de lama. E, mesmo quando sair não for uma opção, é possível ouvir a chuva, sentir o cheiro da terra molhada. Basta pausar alguns minutos e viver isso junto com elas.

Marcar a passagem das estações em casa. Para quem, como eu, vive em lugares onde as quatro estações são bem definidas, pequenas mudanças ajudam: trocar objetos decorativos, trazer para dentro as cores e símbolos de cada estação.

Planejar o cardápio de acordo com a estação. Sopa quando esfria, sorvete quando faz muito calor. Quais são as frutas da estação? Você conversa sobre isso com sua criança? Observam juntos quanto tempo leva para aquela fruta amadurecer?

Adicionar água. Eis aqui o “segredo” do meu maternar — e um que já compartilhei com milhares de mães: deu ruim? Adicione água. Deixe a criança brincar na banheira ou encha uma bacia ou balde na varanda. Transfira água de um recipiente para outro, use barquinhos ou animais aquáticos. Água acalma. Aliás, escrevo esta coluna sentada no corredor enquanto minha filha de três anos brinca na banheira.

Não precisamos complicar nem transformar isso em mais uma tarefa. A natureza pode e deve fazer parte da rotina. O que ela exige de nós é atenção e presença, para que possamos apontar para a criança:

“Os dias estão mais curtos.”
“O sol está diferente.”
“As folhas das árvores estão caindo.”
“Você reparou que tem chovido mais?”

Lya Luft escreveu que “a infância é o chão que pisamos a vida inteira” e, menina do sertão que sou, quando penso em chão não penso em algo liso ou abstrato, mas em terra, chão batido e sol. Se a infância é esse chão, ela não existe sem natureza, porque é no contato com o mundo natural que o corpo aprende ritmo, limite, adaptação e pertencimento. Uma infância afastada da natureza é um chão afinado demais, pobre de textura e experiência — e isso não é destino, é contexto, e contextos podem ser transformados.