Mãe é um ser que vive às voltas sentindo alguma culpa. Espero que não tenha sido apenas eu que me senti mal por não ter feito o cabelo maluco no meu filho pequeno. Talvez eu tenha sido uma das piores mães porque no dia ele faltou, mas sei que teve muitas que devem ter sentido culpa por não terem se esforçado mais, por terem sido pouco criativas ou se atrasado no dia.
A verdade é que a gente nunca vai estar satisfeita com o que fazemos pelos nossos filhos. Sempre falta alguma coisa. No caso das mães que se dividem entre o cuidado com os filhos e o trabalho formal, a equação aperta mais. E se você não tem um pai presente para dividir as tarefas, fica ainda mais complicado. Mas, essa é a realidade da maioria de nós e a gente se esforça, mas, infelizmente, sempre vai ter algo que não estará perfeito.
Houve um tempo da minha vida em que minha única atividade era cuidar da casa e dos meus filhos. No entanto, mesmo nessa época, nunca achei que estivesse fazendo o suficiente. Eu cuidava do cardápio, participava de todas as reuniões, inventava penteados, ia deixar e buscar na escola, ensinava as tarefas todas. No entanto, tinha dias que a comida não saia como o esperado. Havia atrasos em alguma coisa. Minha memória nessa época era ainda pior que hoje e uma vez, exausta, perdi a chave e descobri que tinha jogado no lixo sem querer.
Essa memória ruim era devido ao sono cortado das noites e talvez porque não me alimentasse direito. Eu me doava ao máximo e esquecia de mim. Minha saúde mental e física foram deixadas de lado. Eu andei perto de surtar porque as tarefas não tinham fim. E mesmo assim, não conseguia ser a mãe que eu queria. Idealizei a maternidade porque sempre tinha trabalhado fora. Na minha ingenuidade, achava que não era perfeita porque me dividia entre o trabalho formal e a casa. Mas, a realidade é que a perfeição não existe.
Esse menino que hoje tem nove anos, amamentei até os dois anos e meio e nunca consegui que dormisse sozinho. Foi uma luta grande fazê-lo entender que éramos duas pessoas diferentes. Ainda hoje, é difícil.
Então, ao pensar nisso, assumo a culpa de não ter feito o tal do cabelo maluco, mas lembro que essa conta da mãe perfeita nunca vai fechar. Para compensar a falta de não ser a super mãe, tento lembrar que todo dia é dia de colocar um tijolinho nas lembranças especiais.
O que fica marcado mesmo é o trivial, o pequeno cuidado do cotidiano. Um dia desses, meu filho mais velho falou que uma das lembranças mais doces que ele guarda são os sorvetes na volta e os caracóis nas plantas alheias na ida para a escola. A leveza que a minha ilha da bobeira (lembrem de Divertidamente) super desenvolvida dá aos dias deles, mesmo eu estando pouco em casa fez a diferença, segundo ele me contou.
Continuo levando o pequeno para as aulas e já identificamos muitos pequenos tesouros, compartilhamos sonhos esquisitos e alisamos os gatinhos da rua.
Minha mãe nunca trabalhou fora de casa e o que lembro mais da infância ao seu lado, especialmente antes do nascimento do meu irmão, era exatamente essa leveza. Pulávamos na cama com as músicas do Johnny Rivers. Eu lembro vagamente, mas pode ter sido apenas eu pulando, com ela cantando e batendo palmas.
Ano que vem, eu faço um cabelo maluco legal. Esse ano, não posso voltar no tempo e reverter essa falha. E tá tudo bem.
