Menu

Nunca queira ver ninguém morrer de fome

Lá estava eu, após o santo almoço de cada dia, feito um privilegiado sentado em um confortável sofá de um consultório dentário para a manutenção dos ossos que nos permite sentir um dos prazeres da humanidade, – o sabor da degustação dos alimentos. Ali, naquele silêncio, o telejornal anunciou: “Trump retira os EUA da Unesco”. Em seguida, outra notícia denunciava a fome: “15 pessoas morrem de fome em 24 horas em Gaza”. Fiquei ali sem acreditar e pensando no meu avô – um vaqueiro sobrevivente da seca, que certa vez me contou que já tinha visto muita gente morrer: de mordida de cobra, de faca, vaqueiro morrer estrepado com pau atravessado na garganta, e com os olhos marejados, disse-me: “Mas nunca queira ver gente morrer de fome como eu vi, é horrível”. Os anos se passaram e um dia ele foi diagnosticado com câncer no estômago. Na época, conversando com o médico a respeito da doença, ele foi enfático: “Se não operarmos, ele vai morrer de fome”. Disse-lhe, então: por favor, tente reduzir o estômago dele o quanto for possível. Ele não pode é morrer de fome”. O estômago foi reduzido a quase nada, passando a comer como passarinho, como ele dizia. Comendo pouco, viveu por muitos e muitos anos. Se estivesse vivo, tenho certeza de que não suportaria ver estas cenas ao vivo e a cores. Ao que parece, esse drama humanitário só vai piorar, apesar do apelo de mais de trinta países e de ONGs muito respeitadas internacionalmente, como: Anistia Internacional, Médico Sem Fronteiras, etc, que criticaram o trabalho da Fundação Humanitária de Gaza. Fundação que Israel criou para distribuir alimentos com o apoio de empresas privadas americanas. Apesar da dita Fundação argumentar que está aprimorando o método de entrega de alimentos à população de Gaza, e do governo israelense alegar que os alimentos não estão chegando como deveriam por conta do Hamas. Por outro lado, o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, “denunciou que quinze pessoas morreram de fome em 24 horas”. Fica difícil acreditar no governo israelense que bombardeia hospitais e escolas de crianças e que há muito tempo controla Gaza: a água, a energia e agora, os alimentos. Não precisa ter muito conhecimento sobre o assunto para entender que Israel faz um genocídio a céu aberto com o apoio dos amigos históricos, os EUA, que inclusive, sem a presença dos palestinos em Gaza, leia-se: Trump pretende fazer um resort à beira do Mediterrâneo. E por falar em Trump, retirar os EUA da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) que tem como principal objetivo: promover a paz e a segurança internacional através da cooperação entre as nações nas áreas da educação, ciência, cultura e comunicação, é preocupante. Não se trata por parte dos EUA simplesmente de lavar as mãos, mas de desprezo e mesmo de exclusão dos pobres e mais necessitados desse mundo de meu Deus, incluindo aí os palestinos, em não permitir com os bombardeios o direito à educação e a alfabetização de qualidade; em não garantir a saúde e a cultura ao destruir com os ataques hospitais e o patrimônio cultural material e imaterial daquele povo. Além disso, ao sair da Unesco, os EUA não permitem o desenvolvimento sustentável aos palestinos, os excluindo ao acesso à energia sustentável, a proteção do meio ambiente e a erradicação da pobreza. Certa vez, dois caciques xavantes foram convidados por sociólogos, dentre eles, Mário Sérgio Cortela a conhecerem o grande Mercado Municipal de São Paulo. Eles ficaram encantados com a variedade de tanta comida acumulada. Ao sair do mercado, ao ver um menino no chão, perguntou: “O que ele está fazendo”. Os sociólogos, então responderam: “Ele está pegando resto de comida”. Depois de uns minutos em silêncio, um dos caciques, perguntou: “Por que ele está pegando essa comida estragada se tem tanta comida boa ali dentro?” Por sinal, como entender a fome no mundo, com tanto excedente de comidas do agronegócio, em supermercados, em casas de famílias abastadas, etc e tal.