A engrenagem da criatividade em mim segue certos rituais. Um deles é não calar as emoções. Se não posso expressar por alguma conveniência, eu escrevo. Se for possível, eu choro, abraço, digo o que eu quero.
Para escrever o que sinto, às vezes, a urgência me obriga a escrever no celular, naquele grupo que só tem eu. Muita gente tem esse hábito e eu adotei. Meu grupo sozinha no whatsapp se chama lembretes. Ali tem desabafos, fotos, prints, áudios meus cantando, recitando poemas e também os áudios das entrevistas dos trabalhos.
Tenho um caderno especial que uso para esse fim do desabafo, especialmente os depois da terapia e sobre os relacionamentos que mantenho. Costurado à mão, tem a capa de tecido, encomendei de uma empresa que faz artigos artesanais. Fica na minha mesa de cabeceira. A intenção era fazer um diário, mas não consegui manter a regularidade na escrita.
Como nasci em São Paulo e lá as pessoas gostam de tomar café nas padarias, adotei esse hábito que nunca tive, como um luxo que cultivo apenas aos domingos. Perto da minha casa, a única padaria é a do posto de gasolina. Levo o livro da vez na ecobag, peço um café com leite, uns pães de queijo e vou saboreando a leitura na paz de não ser incomodada.
Em alguns dias mais inspirados, consigo colher o tema da crônica. Em outros, aproveito a meia hora de sossego para relaxar da correria de sempre. Mesmo sabendo que dali terei que ir no supermercado comprar os ingredientes do almoço, porque domingo, para mim, também é dia de cozinhar. Nos domingos mais recentes, antes da leitura na padaria, ainda faço meus exercícios na academia porque na semana ainda não consegui cumprir os três dias que prometem fazer diferença na saúde.
Quando tenho terapia, procuro encontrar uma amiga depois para conversar ou me dar de presente alguma comida que eu goste. Se for início de mês, um café naqueles bistrôs bonitos acompanha o combo.
No meu banheiro, aprendi a sempre deixar uma vela perfumada que me ajuda no relaxamento quando chego em casa. Apago as luzes e deixo apenas ela acesa, enquanto a água lava o cansaço, as contrariedades e o que não deu tão certo durante o dia. É uma benção. Tem o poder de um abraço de alguém querido sentir aquele cheiro bom antes de dormir.
No entanto, o maior luxo de todos e esse eu nem comprei, é chegar em casa todos os dias e dar de cara com meus meninos ansiosos para saber como foi o meu dia e pelos beijos de sempre. O mais velho, às vezes me traz um chá quando eu peço e o menor, uns copos de água quando estou ocupada. Que esses pequenos luxos, verdadeiros respiros na rotina dos dias que correm agoniados, possam se manter ou se renovar com outros elementos para que a criatividade se mantenha. Amém.
