Um mestre de meditação que é muito querido para mim dizia que nós temos o hábito compulsivo de fazer alguma coisa. Diante de dificuldades, dúvidas, angústias e ansiedades nós saímos fazendo coisas.
Lá no Vale do Silício, que finge ser o centro do mundo e nós acreditamos, eles dizem: Mova-se rápido e quebre as coisas. Como que a sugerir para todos nós que a solução para nossos problemas está em fazer mais, mais rápido.
Anos atrás, em uma espera de muitas horas no aeroporto, assisti a uma moça lendo Como Fazer o Dobro na Metade do Tempo, e fiquei pensando que os autores achariam terrível ver tanto ela quanto eu perdendo tempo, ela lendo, e eu me assustando com um livro.
Thich Nhat Hanh, o mestre, é um monge vietnamita que não tomou um lado durante a guerra do Vietnã. Ele e os irmãos da mesma Ordem se esforçaram para levar remédios e socorro aos feridos dos dois lados da guerra. Por esse motivo, vários deles foram mortos.
Ele saiu do Vietnã brevemente para um ciclo de palestras pela paz, mas enquanto estava fora foi exilado pelo governo, e por quarenta anos ficou proibido de retornar ao seu país.
Depois de migrar e buscar socorro para as crianças órfãs de guerra no Vietnã, teve a oportunidade de fundar um pequeno mosteiro, que se tornou um enorme centro de meditação no interior da França, o Plum Village.
Lá, ele recebia pessoas do mundo inteiro para sentar, andar em silêncio e respirar fundo. Para essas pessoas super ocupadas, ele ensinava a parar.
Ouvindo os mestres do silício, que insistiam em ir cada vez mais rápido, ele pegou uma frase: “Não fique aí sentado, faça alguma coisa”. Sendo também um poeta, escolheu brincar.
Para todos, repetia: “Não faça alguma coisa. Fique aí sentado”, ele dizia. O sentido da frase, claro, não é que a gente deva desistir da vida, abandonar nossos sonhos e esperanças, ou deixar de agir pelo bem de nossas famílias e do mundo.
Ao contrário, o monge poeta nos ensinava que a melhor semente das boas ações não está em passar a noite no aeroporto lendo Como Fazer o Dobro na Metade do Tempo, mas em sentar-se, respirar fundo, escutar a vida, e aprender com ela.
Não faltam exemplos: Gandhi, Mandela e o nosso sul-americano Mujica, todos passavam muito tempo em silêncio, e para quem olhava de fora estavam sem fazer nada.
No fundo, talvez desse para dizer que estavam em profunda comunhão com a vida. Uma atitude que só é possível na liberdade do silêncio.
Quando eu quis começar a fazer silêncio, procurei um templo perto de casa e fui treinar. Em casa não estava dando certo. Eu tentava, desistia, tentava de novo, e desistia outra vez. Lá no templo, fiquei sentado por quase uma hora. Na saída procurei um monge para pedir dicas de como treinar em casa e ele me mandou ficar em silêncio apenas cinco minutos por dia, de frente para uma parede, confortavelmente sentado de coluna reta.
Eu perguntei se cinco minutos não era muito pouco tempo, e o monge sábio e bem-humorado me perguntou: E quanto tempo você passa em silêncio hoje?
Para Começar a Ficar Sentado
Para um contato com o silêncio, experimente o livro Silêncio, de Thich Nhat Hanh. É uma lição poética da falta que o silêncio faz em nossas vidas e do poder de ficar parado em um mundo que está sempre em movimento.

Após algum tempo, pode ser que você queira convidar as crianças para participarem dessa experiência com você.
Aí, eu sugiro o livro Crescendo Zen, da brasileira Rachel Melo. Rachel passou meses no Japão, várias vezes, aperfeiçoando seu livro em contato com mestres de meditação por lá.
Mas depois voltou, e aqui no Brasil já levou seu projeto para milhares de crianças em escolas públicas e particulares, e ganhou prêmios por aqui e internacionalmente.
