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Na nova ordem mundial, governa-se por redes sociais, com violência e narrativas culturais 

Pense num papo nostálgico, realista e triste. No fim de semana, fui convidado pelo amigo Isaac Cândido para fazer a audição de três regravações de suas canções com parceiros. Após apreciá-las cuidadosamente, disse-lhe: Todas estão com arranjos perfeitos: execução dos instrumentos, qualidade sonora, timbres e intensidade. Porém, foi inevitável a pergunta: quem está cantando, interpretando divinamente? Tudo feito por IA, inclusive o cantor, e disse-me: “Eu vou fazer dois discos. Ambos têm dez músicas, o primeiro com músicas minhas e do Marcus Dias e o outro com parceiros, sendo todas canções tocadas e interpretadas pela IA. Nós temos que entrar na nova ordem musical”. Parece que a geração de músicos, cantores e compositores da tal ‘MPB cearense’ oriundos de festivais do final dos anos 70, do Massafeira e que tocavam em bares, não deu muito certo para o mercado fonográfico, ainda que tenham vivenciado e gravado LPs em fitas cassetes, CDs e em streaming, acabaram sendo consumidos com uma voracidade insaciável pela IA. Não deu nem tempo de ser antropofágico – de absorver tais “técnicas” ou “devorar” tal inteligência cultural artificial, reelaborá-la e convertê-la em coisa aceitável. Recentemente, eu estive em um evento em que a banda formada por um trio – vocalista, baixista e guitarrista eram a atração da noite. De repente, comecei a ouvir sons de piano, trompete e violinos. Mudei de lugar e aí constatei o que não queria ver: em certos momentos, o baixista parava de tocar, mas o som continuava. Percebi o mesmo com a guitarra, inclusive com a voz do cantor. Tudo era uma mistura de realidade e irrealidade musical e todos reverenciavam o cantor e a banda. Criei coragem e perguntei para duas pessoas presentes à mesa se estavam percebendo o que estava acontecendo no palco, e ouvi como respostas: “Essa banda é massa! O cantor é um show!”. Acreditem, um querido amigo e professor de Geografia tem como hobby brincar de fazer música pela IA, e se orgulha da perfeição de suas letras e canções sem tocar sequer um instrumento. Outro dia, um outro colega e grande compositor mostrou-me as suas novas canções criadas pela IA e, com satisfação, falou-me: “O custo para criarmos uma música pela IA é de apenas 19,50. Estamos, agora, na nova ordem musical!”. Vixe! O que será dos compositores e músicos? E por falar em nova ordem mundial, duas são as novidades do novo imperialismo do século XXI: a utilização de redes sociais como X para intimidar antigas potências e a imposição de tarifas para levá-las ao desespero e possíveis crises econômicas, e assim as submeterem. O discurso de levar a tal civilidade e a “democracia” e, assim, justificar a invasão de um país soberano e a prisão de seu governante para ser julgado pelo xerife, o Tio Sam, ainda está em voga. Historicamente, isso aconteceu com Saddam Hussein e, agora, com Nicolás Maduro. Nessa nova ordem imperialista, a ONU vai para o beleléu! Como já prognosticara antes em algumas crônicas para esse jornal. Na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, dia 22, foi lançado formalmente o convite de Trump as principais lideranças internacionais para integrar o Board of Peace, o “Conselho da Paz”, com o objetivo na reconstrução e reorganização política e econômica da Faixa de Gaza, e Lula foi convidado. Então, Trump que apoiou Israel na destruição das cidades e morte do povo inocente palestino, quer presidir o tal Conselho da Paz? Interessante, esse Donald prende Maduro dentro do seu país desrespeitando a soberania venezuelana, ameaça invadir o Canadá e de ter o controle do Canal do Panamá e, agora tomar o território da Groenlândia e quer o Prêmio Nobel da Paz? Os países europeus não conseguiram conter os russos e ainda levaram um chute na bunda dos EUA e, o pior, se acovardaram. Lula, com sua liderança e influência diplomática, foi de fundamental importância para a aprovação provisória do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul que “pretende eliminar cerca de 91% das tarifas sobre produtos negociados”, não vai entrar nesse imbróglio de “Conselho de Paz” e se submeter a Trump. Esse novo mercado promissor com a União Europeia e com a China nos deixa numa situação confortável, até porque apenas 12% do que exportamos vai para o mercado norte-americano, mas 28% vai para o mercado chinês. Vida longa a política e a música real, mas até quando?