Alguns dias atrás, quando meu marido me perguntou o que eu gostaria de ganhar de presente no meu aniversário de 40 anos, no ano que vem, a resposta veio sem hesitar: uma viagem com as minhas amigas. A verdade é que eu já vinha pensando nisso há algum tempo. Mais especificamente, desde a morte da Preta Gil.
Enquanto todo mundo falava sobre prevenção ao câncer, eu só conseguia pensar em uma coisa: foram as amigas que estiveram com ela até o fim. Pouco sabemos sobre o que, de fato, acontece na vida dos famosos, mas a história é tão velha quanto o tempo: a mulher adoece, o marido trai ou abandona. Quem nunca acompanhou de perto um caso assim? Afinal, os homens se protegem, as mulheres se cuidam.
Nós sabemos. Talvez por isso, exista algo em nós, um instinto ancestral, que de tempos em tempos sussurra — ou grita: aproxime-se de outras mulheres. Pode ser um imprint, uma memória herdada das nossas avós, tias, mães. Uma sabedoria transmitida no sussurro, no remedinho caseiro, num toque de mão, no parto, no luto, nas tantas dores compartilhadas ao som do silêncio.
No meu primeiro livro, recém-mãe, eu escrevi: “Não ouso dar conselhos a quem está prestes a se tornar mãe. Mas, se tivesse que escolher um, seria esse: encontre uma rede de apoio. Acredite, você vai precisar.” Rede de apoio. Suporte. Amigas. Seja lá que nome você resolva dar a elas. Cerque-se de mulheres fortes!
Durante um período da minha vida, eu fiz parte de um grupo de mães brasileiras que viviam em Nova York. Com os filhos bebês no colo, nos encontrávamos mensalmente para compartilhar as dores e delícias da maternidade, especialmente o desafio de maternar longe de casa. Aquelas mulheres me ajudaram a atravessar os dois primeiros anos de maternidade, anos de dúvidas e emoções intensas. Mas a vida foi acontecendo. Mais filhos chegaram, algumas voltaram ao Brasil, e o grupo se desfez. E, com ele, aos poucos, se desfez também a minha disposição de investir em amizade. Não por falta de convicção na importância delas, mas por falta de tempo e de espaço mental. Como acontece com tantas mulheres, o acúmulo de papéis e responsabilidades da vida adulta — tive mais duas filhas e abri uma empresa — acabou me forçando a priorizar a família e o trabalho, enquanto as amigas foram ficando para depois.
Nada de novo sob o sol. Nós, mulheres, somos socializadas para ter o casamento e os filhos como meta de vida. A busca pela alma gêmea que nos completa. A crença de que “meus filhos são tudo para mim”. Como se isso bastasse. Como se um núcleo familiar bem estruturado fosse suficiente para nutrir toda a nossa necessidade de troca e conexão. Quando, na realidade, se soubéssemos o quanto as amizades entre mulheres podem nos oferecer senso de valor, pertencimento e identidade, talvez a sagrada instituição do casamento estivesse em perigo.
Nos últimos anos, ficou na moda falar em “amizades de baixa manutenção”. Quando ouvi o termo pela primeira vez, achei chique. Eu, do auge do meu TDAH, sempre fui péssima em manter contato — não por desinteresse, mas porque a rotina me engole. Um termo que identificasse relações que não exigem contato frequente nem grande esforço? Me senti vista. Representada. Cool. Jovem, até. Afinal, carência é coisa de gente ultrapassada, não é? O problema não era meu.
Até perceber que era, sim.
Eu estava vivendo uma solidão tóxica — um tipo de estresse crônico que distorce a percepção da realidade. Sentia-me atacada, esquecida, rejeitada com facilidade, em situações em que as pessoas, muito provavelmente, sequer pensavam em mim. A verdade é que o problema era meu, e a solução também: eu precisava das minhas amigas. Não necessariamente de novas amigas, mas de me reaproximar das que já existiam. De cultivar. Nutrir. Investir. Relações que exigem manutenção alta, tipo pacote VIP: contato frequente, presença intencional, partilha de intimidade e vulnerabilidade, presença.
Na infância e na juventude, a conexão entre meninas parecia tão natural. Estava nos rituais: dividir o espelho antes da balada, emprestar roupas, comentar a mesma música, sonhar os mesmos sonhos. A vida adulta, no entanto, foi desmanchando esses espaços coletivos e íntimos. Trocamos o espelho compartilhado pelo espelho do banheiro apressado, as conversas longas por áudios interrompidos, o riso conjunto por notificações. E, quando o tempo escasseia, passamos a viver em ilhas — cada uma lidando com seus filhos, seus boletos, suas dores.
Fazer e manter amizades parecia tão mais fácil quando éramos mais novas. Um tempo atrás, minha filha do meio conheceu uma menina na praia. Nunca haviam se visto antes, mas se deram as mãos e anunciaram: “A gente decidiu ser amigas!”. Aquela cena ficou comigo. Aquela palavra: decidir. É isso. Aos quase 40, eu decido reaprender a ser a amiga que fui aos 20. Com menos tempo, sim. Menos disponibilidade. Mas com muita disposição e intencionalidade.
No último mês, uma amiga veio dormir aqui em casa com as filhas. Apesar da função de mãe, cada olhar e riso trocado enquanto observávamos nossas meninas brincarem trouxe uma alegria antiga ao meu coração. No fim de semana seguinte, deixei meus filhos com a babá para correr 5 km com outra amiga. São coisas que exigem esforço, planejamento e, sim, privilégio. Mas sabe aquela aldeia simbólica que, por séculos, ajudava a criar filhos, atravessar perdas e celebrar pequenas alegrias do cotidiano? Para ter essa aldeia, é preciso antes aprender a ser uma aldeã.
E como vale a pena quando a gente aprende.
As conversas com amigas de 40 e poucos anos muitas vezes envolvem temas sensíveis: luto, divórcio, infertilidade, a preocupação com a adolescência dos filhos. As piadas sobre crushes deram lugar às piadas sobre perimenopausa. Mas pertencer a um círculo de mulheres que se escolhem, se amparam e se espelham é precioso. E o custo de não ter esse círculo é, para nós, mulheres, muito alto.
Vide as muitas Pretas das nossas vidas. Vide a dinâmica dos relacionamentos abusivos, em que o homem começa isolando a mulher das amigas. Mesmo nos casamentos felizes, pesquisas mostram que mulheres são mais saudáveis e satisfeitas quando têm suporte fora da relação. Ninguém merece carregar o peso de ser tudo na vida de alguém — nem o marido, nem os filhos. Que possamos dar, então, aos nossos filhos (e, principalmente, às nossas filhas!) o exemplo do que é ser também uma boa amiga.
Afinal, as amizades entre mulheres não são acessórios, mas estruturas de sustentação — emocionais, espirituais e até físicas. É nas conversas longas, nas risadas cúmplices e nos silêncios compreendidos que voltamos a nos reconhecer. Ser uma aldeã é um ato de resistência: é escolher priorizar mulheres em uma sociedade que dificilmente nos prioriza.
