Menu

Mundo tão desigual, tudo é tão desigual

Na frente da TV, na quarta-feira (11), fiquei ali, sem entender e acreditar: jogo da seleção canarinho meio desbotada, dirigida por um técnico estrangeiro. Acho que estou envelhecendo mesmo, nunca imaginei que veria algumas coisas improváveis acontecerem. A primeira vez que me dei conta, aconteceu em uma sessão no belo cinema São Luiz, em 1982. Ao assistir ao filme de ficção Blade Runner: O Caçador de Androides – engenharia genética, androides com sentimentos humanos, fotografia em 3D, telefone público com videochamada em tempo real, mulheres atraentes androides. Pensei: “Pena que não vou ter vida para ver tudo isso”. Pois é, entre cinquenta e sessenta anos, tenho visto muita coisa: menina masculinizando-se com mudança de voz, barba e tudo que tinha direito, gente morrendo a tiros, acidentes, morrendo de Covid 19 em hospitais, traições, amigos que queimaram a fila da partida, homem mais rico do mundo pousando de play boy, políticos de extra-direita defendo o extermínio dos povos originários, capitão expulso do exército por má conduta e motim virar presidente, influencer milionário sem produzir nada de útil com milhares de seguidores e envolvido com jogos ilícitos, gente catando e comendo resto de lixo. A fome e a sede deveriam despertar o que há de mais humano em nós. Como ser feliz com tudo isso e com as estatísticas: esse ano, estima-se que mais de 295 milhões de pessoas no mundo enfrentaram insegurança alimentar aguda, diga-se, fome. Os motivos, todos já sabem: conflitos, guerras, eventos climáticos, crises econômicas, judeus dando uma de nazistas e exterminando palestinos inocentes a céu aberto. Na quinta-feira (12), aconteceu o que prevíamos, mas não queríamos que acontecesse – Israel atacou o Irã, ou seja, declarou guerra. Então, vou ter tempo para ver o que não queria, a Terceira Guerra Mundial e mais miséria, sede e fome? Para quem sabe, a safely managed, ou seja, água potável, sem contaminação e segura nas residências, apenas tem acesso 27% da população global, enquanto 115 milhões extraem água diretamente de rios, lagos ou córregos. Na semana passada, entre uma cidade e outra do interior, parei para almoçar. Um andarilho, muito magro, olhos fundos e fétido, olhou-me e disse: “Eu estou com fome”, e ficou em silêncio, ali em pé”. Ao chegar o almoço e a água, ele curvou-se e ajoelhou-se. Foi estranha a minha reação, disse-lhe: “Não faça isso. Levante-se!”. Ao chegar na “Loira Desposada do Sol”, um pedinte aproximou-se do carro e pediu água. Ao receber uns trocados naquele sol a pino levantou as mãos e rezou. Não sei se era o cansaço, mas a cena pareceu-me acontecer em câmara lenta, feito um filme. Tudo isso acontecendo e nós aqui, na Terra Brasilis, tentando pela primeira vez prender militares, – coisa que os países vizinhos já fizeram faz tempo. Será que vamos ter que admitir a filosofia niilista que nega ou questiona o valor, o sentido, o propósito da vida, da moralidade, da verdade e da existência em geral e vamos ter que buscar o niilismo ativo, ou seja, acreditar que a vida não tem sentido e que, portanto, devemos criar novos valores e significados? Será que “depois da exterminada a última nação indígena”, como Caetano Veloso prognosticou em sua canção “Índio”: Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante/ De uma estrela que vira numa velocidade estonteante/Um índio preservado em pleno corpo físico/ Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias/Virá impávido que nem Muhammad Ali/Apaixonadamente como Peri/Tranquilo e infalível como Bruce Lee e nos salvará?