Quando criança, nunca pude ter um pet. Minha mãe era avessa a bichos de estimação. Sempre amou apenas as plantas e dizia que eu evitasse os animais. Se fosse cachorro, dizia que eles mordiam e que eu não tocasse neles. Já os gatos, ela falava que davam asma e faziam mal.
No entanto, eu sempre tive uma simpatia especial pelos bichanos, embora não lembre de ter visto muitos em São Paulo, onde nasci e vivi até os cinco anos.
Chegando ao Ceará, minha vizinha dona Maria tinha um gato sem nome, rajado de cinza. Ele era um pouco idoso e tinha chegado junto com ela ao apartamento. Ele passava o dia na rua porque ela trabalhava e só aparecia de noite para se alimentar.
Dei um nome peculiar a ele: Meau. Na minha mente de criança, eu imaginava que ele chegava de noite porque trabalhava durante o dia. Não sabia em quê.
Depois, Meau teve uma namorada fixa, que eu chamei de Meala. Era uma gatinha tricolor de dois blocos depois do meu.
Nunca entendi porque ela escolheu a escada do meu apartamento para as noites de orgia do acasalamento. Meu pai chegava do trabalho perto de dez da noite e vinha tangendo os 12 namorados da Meala. Por essa época, o Meau já estava idoso e tinha apenas um dente, o que o impedia de se defender e também de disputar a namorada com os outros pretendentes.
Um dia, o Meau depois de semanas desaparecido chegou com o pescoço muito machucado. Cheguei a fazer alguns curativos e colocar um antiinflamatório no meu gatinho querido, que nem era meu, mas que eu gostava tanto.
Depois de uma viagem para São Paulo, ele desapareceu de vez. Talvez tenha morrido brigando ou talvez atropelado.
No entanto, tanto Meau com Meala nunca chegaram a ser da nossa casa. Só apareciam para comer e receber os carinhos. A minha mãe sustentou sempre que não queria animais em casa.
A Meala teve um fim trágico. Depois de apanhar grávida de uma criança má com um cinturão, perdeu seus filhotes, ficou muito triste e faleceu.
Foi uma das minhas piores lembranças da infância. Foi com ela também que eu aprendi sobre o acasalamento dos bichos. A desavergonhada cruzava em plena luz do dia para quem quisesse ver. Não esperava anoitecer. E sempre ficava de barriga para cima. Nunca mais vi gatos desse jeito.
Depois de ter criado meus próprios gatinhos, estou há oito anos sem ter um mascote. No entanto, trago de vez em quando o Listrado, o gato siamês rajado da minha vizinha de baixo, para receber uns carinhos na nossa casa.
Entre as peculiaridades do Listrado estão o fato de ele ter assumido os filhotes da primeira namorada, a Úrsula e visitava todos os bebezinha todas as noites.
Depois que a dona dela se mudou, Listrado ficou desiludido e passou a tomar água de ar condicionado e comer lodo dos canos. Há quem diga que é por isso que ele fica um pouco mais lesado que o habitual. Agora, Listrado tem um novo amor, a gata do condomínio vizinho, chamada Elizete. É da casa dela que ele vem todas as noites, como um gato boêmio.
Fico mais feliz quando encontro com ele indo trabalhar. As vezes, a Cláudia, dona dele, demora a abrir a porta para ele entrar de manhã e ele vem miar na minha porta, para que eu toque a campainha e ele possa entrar.
Esses são dias mais felizes, porque, para mim, alisar um gatinho é quase uma terapia. Vida longa ao Listrado.
