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Memórias da Infância

A poetisa estadunidense Louise Gluck escreveu, num poema sobre uma árvore: Nós olhamos para o mundo uma vez, na infância. O resto é memória.

É difícil discordar. Com o que sabemos sobre a construção do cérebro da criança, com os livros de Bruce Perry e Nadine Haris, é isso mesmo: Formamos nossa interpretação do mundo e quase todas as nossas noções de sociedade e cultura antes de estarmos conscientes de tudo isso. Depois, lembramos.

O problema: Ao lembrarmos, o esquema de mundo de nossa infância nos parece o mais verdadeiro e o mais correto. Então, se bem pequenos aprendemos que o mundo é perigoso, porque apanhávamos de nossos pais, quando adultos temos medo de apanhar ainda: Do outro país, da outra cor de pele, da outra opção sexual, da outra classe ou do outro posicionamento político.

Não temos só desejo de mudança, ou sonhos de outra realidade, temos medo. O medo é a memória do mundo que vimos quando éramos bem pequenos, e que continua ecoando nas cavernas de nossa mente: é perigoso, é perigoso, cuidado…

A cada geração só um pequeno grupo pode mudar o destino de toda a humanidade: os adultos com crianças pequenas.

Nossos pais cuidaram de nós. Nos educaram como puderam. Nossos professores também. Os elogios e os gritos, a comida farta (tomara) e a violência física, eles nos deram o melhor que tinham.

Olhamos para tudo isso e pensamos: deu certo. Onde foi que deu certo? É difícil admitir que não deu certo, porque aí precisamos fazer duas coisas:

  1. Aceitar de verdade, e completamente, que nossos pais (e os pais deles) erraram feio; e
  2. Começar o enorme trabalho de reparação.

Nossos pais não erraram por crueldade, nem por planejamento. Foi sem querer. Por ignorância, falta de tempo, necessidade. Mas erraram. E nós somos resultado de seu amor e de seus erros.

Foto: Reprodução

Agora que nós conhecemos e reconhecemos esses erros, temos a responsabilidade de começar a consertar, e dá trabalho.
Devemos ter toda a compaixão do mundo para com nossos pais e avós. Eles foram as vítimas que nós somos. Mas não tinham a informação que nós temos.

Mas precisamos ter ainda mais compaixão com nossos filhos e todas as gerações que vêm depois, e dizer para nós mesmos: Desta geração não passa!

Maria Montessori, que apontou primeiro a opressão da criança, disse:

“Não existe problema social mais universal do que a opressão da criança”.

Mudamos com um compromisso de cada vez: Nunca mais bater, diminuir os gritos… depois parar de gritar. Falar com calma. Escutar. Escutar de novo. Respeitar os esforços e os erros da criança como se ela fosse uma pessoa e como se ela tivesse dignidade – que ela é, e que ela tem.

Não é rápido, e nós não vamos fazer o trabalho inteiro. Com sorte, o eco nas mentes de nossas crianças vai ser melhor, mais leve que o nosso. E elas poderão fazer mudanças ainda maiores. Se nós só olhamos o mundo uma vez, e o resto é memória, que memória você quer deixar?

Para Enxergar a Dor das Crianças

Muitos livros tratam da dor das crianças, mas alguns fazem isso de forma especialmente competente. Aqui vão dois. Um é de literatura, um romance. Outro é científico, mas escrito em forma de entrevista, muito compreensível.

Foto: Reprodução

Deus Ajude Essa Criança – de Tony Morrison, é um romance que nos remete a um conto de fadas, mas que coloca o racismo contra uma menina negra no centro da obra, e nos ajuda a entender o impacto das dores da infância na idade adulta.

O que Aconteceu Com Você? – de Bruce Perry, é uma entrevista do autor, psiquiatra, com Oprah Winfrey, em que exploram o papel das primeiras experiências da vida na construção dos principais circuitos do cérebro e propõe mudar a pergunta do diagnóstico: “Qual é o seu problema?” para a pergunta que revela a história e caminhos para o futuro: “O que aconteceu com você?”.

Os dois livros mexem profundamente com o leitor, e merecem uma leitura lenta, e pausas para refletir.