Outro dia, conversando com o colega, ele falou-me que a empresa em que trabalhava o havia desligado, e desabafou: “Os empresários hoje, usam um nome mais bonitinho quando não querem mais os seus serviços, o chamam de “desligado” e não mais demitido”. Essas ideias foram associadas à política neoliberal, a qual passou a reduzir a política a uma simples gestão administrativa e o Estado visto como uma empresa. Segundo Marilena Chauí: “A ideia da política como governo, como discussão e conflito, desapareceu. Forma-se um todo de empresas e sociedade e o próprio estado é considerado uma empresa”. Nesse sentido, para Chauí, “você tem a privatização do estado. Ele próprio é pensado com a característica do mundo e interesses privados, e por isso se dá a si próprio o nome de gestor. Eles têm o fascínio pelas ditaduras militares”. Ao se denominar gestor, retira-se a ideia da responsabilização do político, pelas suas ideias, discussões e moderações conflituosas tão inerentes à política. E, por falar em fascínio por ditaduras militares, pela força, pela violência como solução contra os declarados inimigos, caracteriza a forma de ação dos fascistas, da extrema-direita e de partidos de direita. Que o estado brasileiro falhou, acho que todos, quer sejam de direita ou de esquerda, concordam. Nunca tivemos uma polícia de estado no intuito de conter a violência urbana, especialmente nas favelas verticais do Rio de Janeiro, com seus traficantes, suas diversas facções, milicianos e bandidos para todo gosto, inclusive, que comandam, de dentro das prisões, com todo ambiente tecnológico. Celular dentro de prisões? Onde já se viu isso! Esta informação, sobre o nosso sistema penitenciário, deixaria qualquer pesquisador estrangeiro sem entender nada. Por sinal, um sistema penitenciário completamente falido em seu objetivo de ressocialização de presos. No dia 2 de outubro de 1992, aconteceu o Massacre do Carandiru, na casa de detenção em São Paulo. Após uma rebelião no Pavilhão 9, a extrema violência da polícia levou a morte 111 presos e nenhum policial morreu. Fica claro que o emprego da violência não resolveu esse problema social crônico. Ao contrário, as penitenciárias passaram a ser parte dos escritórios de facções, inclusive, financiando e intervindo na economia e na política. No ano seguinte ao fatídico Carandiru, Caetano Veloso e Gilbert Gil, no álbum Tropicália 2, lançaram a canção, “Haiti”, na qual denunciam o massacre: “E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina/ 111 presos indefesos/Mas presos são quase todos pretos ou quase pretos. Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico. Ninguém, ninguém é cidadão. Pense no Haiti, reze pelo Haiti. O Haiti não é aqui”. Pois é, 33 anos se passaram e tudo só piora. As prisões passaram a ser não só a graduação, mas o mestrado e doutorado dos ditos bandidos. Os que estão fora dos muros do presídio, andam fortemente armados, agora, com drones, ditam regras, têm as suas próprias justiças etc e tal, e agem como estados dentro do estado brasileiro. A outra tragédia anunciada, aconteceu dia 29 de outubro no Rio de Janeiro, quando houve a violenta repressão ao Complexo do Alemão e da Penha com 117 civis e 4 policiais mortos. Mas, e a repressão aos consumidores de drogas nas casas e apartamentos de luxo daquela cidade? E a repressão aos vereadores, prefeitos, deputados, senadores, desembargadores e juízes financiados pelo narcotráfico? E agora, gestores? Será que o Haiti é aqui? Rezem pelo Rio de janeiro.
