Menu

Seja uma Testemunha das Crianças

Quando não podemos fazer muito, ainda podemos ver e ouvir
Foto: Reprodução

Fasano, um jovem poeta contemporâneo pergunta a Rumi, o gigante da poesia mística persa: O que eu posso fazer, se não posso mudar as coisas? O persa, apontando para as tumbas, sussurra: Testemunhe. Há tanto desajuste no mundo, e tanto que precisa mudar. Mas o que fazer quando eu não posso mudar as coisas?

Vale para as guerras, as desigualdades imensas e os enormes conflitos. Mas em nossas vidas íntimas vale também. Na vida privada nos acontece o mesmo. Especialmente quando testemunhamos o sofrimento de crianças próximas de nós.

Às vezes, os pais de nossos sobrinhos, alunos, netos, ou até um cônjuge, têm estilos de parentalidade que geram sofrimento nos pequenos. É possível causar imenso sofrimento às crianças sem fugir aos limites da lei.

A lei brasileira de proteção aos menores é bastante avançada. Mas não proíbe nenhum adulto de causar ansiedade e medo nas crianças antes de suas provas escolares, ou de dizer palavras duras demais quando uma nota não é perfeita.

A lei não impede um adulto de fazer as crianças duvidarem do amor que recebem, e duvidarem de suas próprias capacidades. A lei não impede nem mesmo que os jovens venham a duvidar de seu próprio valor.

Por isso, e porque nem sempre somos bons em convencer os outros, às vezes é muito difícil mudar a situação de sofrimento que uma criança vive com seus adultos. Em situações como essa, a recomendação de Rumi combina com a sabedoria dos terapeutas: Ser uma testemunha tem seu valor, e pode ajudar a criança.

Alice Miller, psicanalista, junto de bell hooks e Michèle Petit, autoras brilhantes, defende a presença do que chama de “testemunhas iluminadas” na vida de crianças e jovens.

Miller, que inaugurou o conceito, explica que uma testemunha iluminada é o adulto na vida de uma criança que não é completamente capaz de protegê-la, mas que a ama. “Por meio de sua presença”, ela diz, “a pessoa dá à criança uma noção de confiança e amor.” Segundo ela, crianças maltratadas sem testemunhas iluminadas têm chances grandes de se tornarem criminosos, basicamente por um mau funcionamento geral de sua postura frente ao mundo (e de seus cérebros).

Por outro lado, as crianças maltratadas que podem contar com testemunhas iluminadas têm alguém na vida que as ajuda a reconhecer injustiças, permite que desabafem sobre seus sentimentos de raiva, dor e indignação quanto ao que ocorre com elas e… você adivinhou. Essas pessoas quase nunca se tornam criminosas.

A explicação de Miller é que sem uma testemunha iluminada, a criança maltratada não pode falar de seus sentimentos, é obrigada a soterrá-los em sua consciência e, mais adiante na vida, age de maneira desequilibrada pelas pressões que suas memórias inconscientes lhe deixaram.

Por outro lado, as crianças com testemunhas iluminadas se lembram conscientemente do que lhes aconteceu, compreendem melhor sua posição de alvo e as ações de quem as maltratou, e não sentem a mesma necessidade de terem comportamentos de abuso e crueldade na idade adulta.

Nem sempre podemos fazer muito, mas quase sempre podemos ouvir, validar e cuidar do sofrimento daqueles que, sendo os mais frágeis entre nós, precisam de todas as testemunhas iluminadas que puderem encontrar.