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Futebol: função da alma

Quando parei de jogar e passei a exercer a profissão de professor de Educação Física, fui convidado para trabalhar na Fundação de Assistência Desportiva do Ceará (Fadec), a atual Secretaria do Esporte. Um dia, me pediram opinião sobre o estado do gramado da Arena Castelão.

Esperei o sol ir embora e adentrei o gramado, conforme dizem os locutores esportivos. Parei no centro do campo e senti a máxima do falecido escritor uruguaio Eduardo Galeano: “Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém”.

Os maiores monumentos dos estados brasileiros são estádios de futebol. Evidente que o futebol profissional não é tarefa de governos, mas, no Brasil, durante o tempo das ditaduras, um conjunto de políticas governamentais procurou cativar o povo através dessas construções.

Melhor seria se compreendesse a máxima do saudoso poeta Paulo Mendes Campos, que escreveu ser o futebol no Brasil uma função da alma. Função essa que se enreda em todos os ramos de uma grande árvore psíquica. O torcedor torce e distorce na distribuição dos ramos dessa árvore.

E tome amor, ódio, medo, bravura, solidariedade, piedade, sadismo, senso estético, solidão e morte. Todos esses sentimentos estão presentes nessa metáfora da vida que é o futebol. Não foi um acaso o poeta Fernando Pessoa escrever que o Tejo é o rio mais bonito do mundo porque passa na aldeia dele.

A construção e a identidade de um torcedor estão ligadas à arte e a sentimentos. Até porque o sujeito se separa de tudo na vida, só não troca de time de futebol. Refletir sobre essa condição humana passa longe dos olhos das entidades que dirigem o futebol no Brasil e fazem do mercado sua estrela guia.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deu um prazo entre 11 de janeiro e 8 de março para que a Federação Cearense de Futebol realize seu campeonato. Ano após ano, os campeonatos estaduais vêm sendo discriminados. Sua extinção é questão de mais dois ou três anos.

Extinguir os estaduais seria dar um tiro no próprio pé. Milhares de torcedores e centenas de jogadores vagando como zumbis. E a televisão e o futebol europeu? Por que não mudar de time? Não dá certo. Afinal de contas, o rio mais bonito do mundo é o que passa pela minha aldeia.