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As emas do Alvorada

Nem carpas nem emas escaparam do governo que felizmente já passou

Nem carpas nem emas escaparam do governo que felizmente já passou. As carpas que ficavam no espelho d’água do Alvorada, foram-se. As moedas que lá jogavam, idem. As emas, que habitavam os jardins do mesmo palácio, com a função de evitar insetos e coisa parecida nas paragens da residência oficial da Presidência da República, morreram obesas, será que devido serem alimentadas com comida humana?

Não se cuidava de coisas simples: dos animais, dos móveis da casa, dos tapetes, das obras de arte, pertences não de governos, não de presidentes, mas do povo brasileiro. Faz bem lembrar uma declaração de Dilma Rousseff para O Globo, em 2014, sobre seu neto mexer em objetos de sua casa oficial: “Não é da vovó. É do povo brasileiro”. Esse descuido com coisas pequenas, mas não insignificantes, reflete o descuido-mor: o descuido com o país e com a população, o descuido com aquilo que não é da individualidade, mas da coletividade, com o bem público. Como alguém que não zela pelo que é público pode gerir, ou querer gerir exatamente o que é público?

O ministro Gilmar Mendes, do STF, instituição atacada verbal e fisicamente pela brutalidade de radicais, foi bastante feliz em sua afirmação recente: “a gente estava sendo governado por uma gente do porão”. Parece mesmo que abriram o porão e vieram à tona, subindo os degraus do poder governamental, gente baixa e desqualificada, que proferia palavrões, sem muita postura e decoro, que quebrava constantemente a liturgia política, maculando o padrão institucional.

A destruição aparentemente geral que vigorava resultou em muitas mazelas para o país. Milhões passando fome, milhões em desemprego e em empregos precarizados, na informalidade selvagem. Carestia alimentícia, filas do osso e do caminhão de lixo se multiplicando e ganhando mais adeptos necessitados. A gritante situação de crise humanitária dos indígenas Yanomami.

Eis agora a terra quase arrasada, que se reconstrói e volta para a normalidade e para a civilidade. As emas, as carpas, as vítimas fatais da covid e tudo o mais que foi destruído, permanecerão na memória do povo, que precisa estar vigilante para não esquecer jamais do que foi feito e desfeito nos últimos anos.