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Favelas e/ou comunidades: caos urbano, violência e o futuro das cidades

No domingo matinal, quase sempre saboreio o velho e bom cafezinho com minha querida mãe. Mesa posta e já nos trabalhos, jogando conversa fora, quando ao celular, a enfermeira alerta a filha para ter calma e não perder o horário da prova do Enem. Entre uma conversa e outra, perguntei-lhe onde morava e se a filha conseguiria chegar a tempo à prova. “Eu moro na comunidade tal”. A cuidadora reagiu: “Comunidade não, favela”. Aproveitei o ensejo e disse-lhes: então vocês sabem a diferença entre favela e comunidade. O sorriso e os olhares responderam. De forma sucinta, tentei explicar-lhes a diferença de favela e comunidade. A diferença dos termos está na forma em como são percebidos pela população. O termo comunidade, de certa forma, tem origem no processo de gentrificação, ou seja, significa que um grupo passou por um processo de segregação socioespacial. Pela valorização de uma determinada área da favela, pessoas com maior poder aquisitivo começam a comprar casas em localizações mais estratégicas e passam a realizar investimentos, como áreas de lazer, de infraestrutura urbana e de espaços para receber turistas. Tais práticas forçam muitos moradores a mudarem-se devido à especulação imobiliária e à falta de recursos para se manterem. Os moradores conscientes dessas práticas, que chamam de remoção branca, têm orgulho das suas origens, defendendo o termo favela. Assim, o termo comunidade ficou associado como um local onde há solidariedade, sociabilidade, organização e o termo favela a um espaço de caos urbano, de insegurança e de violências praticadas por traficantes de drogas e milicianos. Acreditem, até bem pouco tempo, ao pesquisar no site do governo o termo favela, encontrava-se “aglomerados subnormais”. Só bem recentemente, o IBGE passou a usar a denominação “Favelas e Comunidades Urbanas”. E por falar em favelas e comunidades, MapBiomas publicado em 2024, não preocupa apenas arquitetos e urbanistas, mas todos. Segundo o levantamento do MapBiomas, o Brasil tem mais de 4 milhões de áreas urbanizadas e, em média, as cidades crescem 2% ao ano, enquanto, nas áreas de encostas, esse crescimento tem tido um ritmo acelerado de 3,3% ao ano, especialmente no Sudeste, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Entre 1985 e 2023, foram mais de um milhão de hectares expostos a riscos de inundações e de cada 4 hectares de crescimento urbano, um hectare é em área de risco com três metros ou menos de um curso d’água. As áreas naturais em torno das cidades como florestas, praias e dumas vem cedo engolidas nos últimos 38 anos.  Ao menos, uma boa notícia: “As áreas verdes como parques e praças vem aumentando um pouco mais que a urbanização”. Fica evidente que o poder público, os políticos e a sociedade têm que incorporar a mudança climática como parâmetro de planejamento para as cidades.