Quando pensamos sobre a infância, quase sempre lembramos de uma época em que “a gente era feliz e não sabia”. Olhando a fundo, quase nunca é assim de verdade.
A psicanalista Alice Miller, autora de O Drama da Criança Bem Dotada, diz que mudamos nossas lembranças inconscientemente para não precisarmos lidar com camadas de sofrimento e dor para as quais não estamos preparados.
Esses sofrimentos frequentemente estão associados a algumas experiências específicas presentes em quase todas as infâncias, que deixam marcas pesadas no funcionamento de nossos cérebros e nossos corpos. Elas são chamadas de Experiências Adversas de Infância.
As experiências estão listadas em um questionário padronizado pela Organização Mundial da Saúde e incluem situações como “seus pais não sabiam o que você estava fazendo no seu tempo livre”; “seus pais abusavam de drogas lícitas ou ilícitas”; presenciar um dos pais sendo agressivo ou violento com o outro, ser vítima de violência física (apanhar), verbal ou sexual.
Adultos que passaram por EAIs quando crianças ou adolescentes têm um risco maior de desenvolver hábitos ruins como sedentarismo, fumar ou beber muito, e até de problemas de saúde graves como obesidade, diabetes, câncer, cardiopatias e doenças respiratórias.
Mais que isso, porém, viver EAIs na infância pode levar a alcoolismo, comportamento sexual de risco, uso problemático de drogas, automutilação e violência com outras pessoas.
Quando olhamos para o comportamento das crianças, aquelas que nunca passaram por EAIs têm uma chance de apresentar problemas de comportamento ou aprendizado de apenas 3%, mas entre aquelas que passaram por 4 ou mais EAIs, 51% apresentam problemas desse tipo.
Algumas EAIs não são culpa dos adultos, por exemplo, “morar com alguém deprimido ou com doenças mentais”. Mas outras são completamente evitáveis, como “Algum de seus pais ou responsáveis gritar, xingar ou humilhar você”.
Talvez nossas lembranças de infância não sejam tão precisas assim, mas se prestarmos bastante atenção, podemos oferecer às nossas crianças infâncias melhores, e vidas livres das dificuldades causadas pelas Experiências Adversas de Infância.
O que é mais forte que as EAIs?
As Experiências Adversas de Infância influenciam negativamente vidas inteiras. Mas há uma coisa que influencia mais ainda, e positivamente!
Quando os adultos na vida das crianças oferecem cuidados amorosos, tranquilos, e estáveis, o poder desses cuidados mesmo em situações de experiências adversas é muito grande.
Por isso, mesmo que você saiba que as crianças vão viver algumas experiências muito difíceis, vale a pena insistir em coisas simples, como brincar junto, ter paciência, ser atento às obrigações de estudo e cuidados médicos, e estar presente em momentos bons e ruins.
Quase todo mundo vive experiências doloridas, e a influência delas em nossas vidas é verdadeira. Mas uma boa saúde relacional funciona quase como uma rede de proteção, que protege a criança quando ela cai. Crianças merecem todo o nosso cuidado, e esse cuidado vai ter frutos positivos por uma vida inteira.
