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Expandir o paladar também é um exercício de escuta

Nesta semana, vivi uma experiência que me tirou um pouco do lugar-comum, e isso, por si só, já é um ótimo ponto de partida para reflexão. Fui convidada para um evento dos Mercadinhos São Luiz, um parceiro querido de muitos anos. Um encontro pensado com cuidado: distribuidores de vinhos, degustação livre, queijos bem escolhidos, massas de produção própria, tudo harmonizado com intenção. Um cenário que, para muitos, é sinônimo de prazer imediato. Para mim, foi também um convite ao desafio.

Eu não bebo. Nunca tive o hábito de beber. Provo, experimento, mas não bebo. E, ainda assim, trabalho com gastronomia, crio eventos, penso cardápios, desenho experiências à mesa. E isso me coloca, inevitavelmente, diante de uma pergunta que às vezes evito, mas que preciso encarar: até onde vai o meu paladar e até onde ele ainda pode ir?

Entender vinhos, espumantes ou até uma cerveja especial não é, necessariamente, sobre consumir álcool. É sobre repertório. É sobre compreender sabores, aromas, texturas e como tudo isso conversa com a comida. Harmonizar não é beber por beber: é escutar o prato, escutar a bebida e entender o encontro entre eles.

Percebi, nesse evento, que talvez muitas pessoas se identifiquem comigo. Gente que não bebe ou que sempre escolhe a mesma bebida por segurança. Gente que nunca se aventurou no universo dos vinhos porque acha complexo demais, distante demais ou até intimidante. Às vezes, não é falta de interesse, é falta de aproximação.

O paladar também se educa. Assim como a comida, ele precisa de tempo, contexto, curiosidade e, principalmente, ausência de julgamento. Não gostar de algo hoje não significa que nunca vai gostar. Às vezes, só faltou o vinho certo, a explicação certa, o momento certo.

Na minha profissão, estudar isso é quase um dever. Tenho amigos sommeliers, tenho eventos que pedem esse olhar mais atento, tenho uma casa que recebe pessoas para celebrar. E tudo isso me lembra que crescer profissionalmente também passa por expandir os sentidos, mesmo aqueles que não são naturais para nós.

Talvez esta coluna seja menos sobre vinho e mais sobre disposição. Disposição para sair do automático. Para investigar por que resistimos a certos sabores. Para entender que gosto não é fixo, é construção. E fica a pergunta, para mim e para você que lê: o que, no seu paladar, ainda não foi explorado porque você nunca parou para se permitir?