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Espera, esperança, expectativa: como viver o tempo com as crianças

Os tempos das crianças pequenas são muito curtos, ou muito abstratos. Algumas coisas as crianças querem agora. Aquelas que vão acontecer no futuro, não importa quão distante, acontecerão amanhã. E as do passado, ontem. Quando ficam um pouco mais velhas, algumas crianças adotam marcos cronológicos, como se fossem pontos de referência num mapa: “as coisas vão acontecer antes do meu aniversário ou depois?”.

O ato de esperar já não é fácil para adultos, que têm agendas e calendários, e um cérebro mais desenvolvido. Para as crianças, esperar é uma atividade quase impossível. A espera traz em si um tanto de incerteza, e a criança tem muita dificuldade para lidar com isso passivamente.

Conheci uma professora de crianças pequenas que administrava as esperas das crianças assim: Se ela estava conversando com um aluno e outro queria atenção, não precisava chamar por ela. Podia colocar uma mão no ombro da professora e ficar lá, em silêncio, até a docente poder conversar. Em geral era um sucesso. De vez em quando, a professora parecia uma árvore com um cacho de crianças no ombro. Mas as crianças conseguiam esperar porque tinham certeza de que seriam atendidas e porque estavam fazendo alguma coisa enquanto esperavam, segurando no ombro da professora.

Uma mãe me mostrou uma vez o calendário que usava com sua filha. Tinha os doze meses do ano na parede, cada um em uma folhinha de papel, e elas iam anotando nas folhinhas os acontecimentos esperados: uma viagem, um aniversário, a visita de um parente. O mês atual ficava exposto com seus trinta dias em uma lousa. Quando chegava um mês, os acontecimentos eram anotados nos seus respectivos dias. A menina, com cinco anos, ficou menos ansiosa assim.

Clarissa Pinkola Estés, autora de O Jardineiro que Tinha Fé, mostra no livro o valor de contar histórias para as crianças sobre a passagem do tempo. O ciclo de preparo, plantio, cultivo e colheita, os ciclos da vida. Enquanto Maria Montessori, psiquiatra e educadora, ensina a preparar uma horta com as crianças, começando pela colheita de uma preparada por nós e depois cultivando a próxima junto com os pequenos.

Todos esses gestos têm uma coisa em comum: Por meio do cuidado, da fala, do gesto ou de um material, como o calendário e a horta, ajudamos a criança a materializar o tempo, que é abstrato por natureza. Ele fica mais visível, mas palpável, como o ombro da professora. Assim, transformamos a espera, que é incerta e quase completamente passiva,
em esperança e expectativa, que trazem em si muito mais certeza, e são mais ativas. A criança, quando pode tocar, entender, e fazer coisas, fica em paz diante do tempo.