Domingo. Deu vontade de ir à praia. Do nada. Chamei meus filhos. Eles sugeriram que a minha mãe também fosse. Me dei conta que, em dez anos dela morando aqui nunca tínhamos ido à praia juntos.
Ela topou. A barraca escolhida era a mesma de sempre. Seguimos para uma mesa perto da piscina cheia. Depois de uns quinze minutos, aparece o garçom para entregar o cardápio. Ele não volta. Canso de esperar, vou no balcão e faço meu pedido.
Enquanto o pedido chega, vou com minha mãe molhar os pés no mar. Seguimos devagar porque ela nunca mais foi a mesma depois das últimas quedas. Nos últimos três anos, fissurou a coluna, quebrou um dedo do pé e um braço.
Ao descer a escadinha, não consigo segurá-la e caio junto. Alguns homens vem para nos ajudar. Peço desculpas e agradeço. Graças a Deus, não se machucou. Vamos até o mar, ela molha os pés e se sente tonta do vai e vem das ondas. Antes que a gente caia de novo, volto devagarinho com ela até a barraca.
Ela toma uma cerveja, come a batatinha. Vou ainda mais uma vez no mar, percebo que é setembro. Todo ano, minha vida muda por essa época.
Em 2025, eu quem resolvi mudar a vida e antecipei para julho as transformações, que seguiam lentamente, belas e cheias de detalhes que me agradavam.
Eu até estava achando um pouco estranho porque a paz era grande. Nesse domingo mesmo, quando acordei, estiquei os braços e pernas o máximo que pude para perceber a extensão da minha cama de casal, onde durmo sozinha. Suspirei e disse: como é bom estar viva!
Volto dos meus devaneios e percebo que os dois cocos que pedi vieram estragados. É feita a troca, mas os substitutos estão quentes. O domingo era de plantão e a chefia avisa que eu teria que entrar mais cedo no trabalho. Hora de ir embora. Decido evitar de vez os domingos nessa barraca. A experiência foi ruim.
Depois de longos 50 minutos de espera, conseguimos um carro por aplicativo. Deixo minha mãe em casa e sigo para a minha. Passada meia hora, minha mãe me liga se queixando do tornozelo. Estava inchado por conta da queda.
Seria a mudança inesperada chegando outra vez? Preferia ter ficado com a mudança de julho. Já estava de ótimo tamanho.
Tento pensar que acidentes acontecem. Mas e se eu não tivesse ido à praia? A culpa chega forte, no entanto, preciso focar na solução.
Depois de saber que minha mãe trocou o cadeado e não tenho cópia da chave, tento me acalmar. Ela diz que podemos esperar para amanhã. Aceito a sugestão e percebo que nunca as coisas vão estar totalmente sob controle.
Para prevenir quedas, podemos nos trancar em casa, como minha avó, mãe dela, fez. No entanto, o preço foi alto porque a demência se antecipou. O risco da queda existe para todos os viventes, inclusive para mim, que sou mais jovem.
Precisamos escolher o risco que iremos correr. Acho que optamos pela melhor parte, mesmo com a queda. Assim, eu consegui dormir e no dia seguinte, o inchaço tinha ido embora. O passeio na praia valeu a pena.
