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Erros Novos Todos os Dias

Na quinta-feira, Maria esqueceu que já havia tomado café da manhã, e tomou de novo. Na sexta-feira, colocou...
Foto: reprodução

Na quinta-feira, Maria esqueceu que já havia tomado café da manhã, e tomou de novo.

Na sexta-feira, colocou um copo ainda ensaboado no escorredor.

No sábado, vestiu um casaco de avesso.

Poderíamos ficar preocupados com a memória e a capacidade de atenção de Maria, se ela não tivesse apenas quatro anos.

Nós sabemos que crianças pequenas cometerão erros. Afinal, todo bebê que começa a andar vai cair, e toda criança que coloca as roupas sozinha vai colocar uma peça do avesso de vez em quando.

Mesmo sabendo que o caminho do aprendizado e do desenvolvimento inevitavelmente inclui muitos erros, quase todos nós passamos anos tentando corrigir todos os erros da criança.

Mais do que isso: nós nos enfurecemos, como se as crianças fossem culpadas por não terem a mesma competência que um adulto teria.

Albert Max Joosten, um grande educador do século XX, escreveu em 1956:

Normalmente, nós, adultos, somos obcecados pelos erros que a criança comete ou poderá cometer. Aguardamos ansiosamente por erros, mesmo antes que a criança os cometa. Ficamos tensos… Trabalhamos sob o peso dessa obsessão, dia após dia.

Ele continua, para contemplar o ponto de vista da criança sobre essa obsessão adulta:

Não é fácil conviver com uma pessoa que sofre de obsessão. A criança infeliz tem que conviver com adultos que nunca se libertam dessa obsessão; ela é indefesa contra ela.

O problema, diz Joosten, é que isso tudo afeta a formação da personalidade da criança, a deixando menos corajosa, segura, e inteligente:

Enquanto sua personalidade está se formando, essa tendência obsessiva aguda dos adultos ao seu redor influencia a construção de seu eu.

O adulto obsessivo adota três estratégias principais para lidar com os erros da criança: Proíbe, interrompe e ajuda.

Proibimos muito. A criança não pode se servir de água ou trocar de roupa, por exemplo. Usamos violências, como gritos e palmadas. Ou fingimos gentileza, e distraímos a criança com um celular. Ou proibimos com o ambiente, trancando portas e colocando as coisas em armários altos.

A interrupção é a irmã gentil da proibição. Em lugar de dizer “você não pode fazer isso”, dizemos apenas “agora não dá tempo de fazer isso, deixa tudo aí e vamos sair”.

Há proibições necessárias: o armário de remédios deve ser proibido. Há interrupções bem vindas: podemos chamar a criança para colocar um casaco no frio. Outras vezes, apenas esquecemos que a criança está desenvolvendo e que precisa fazer coisas para aprender a fazer coisas.

Finalmente, ajudamos muito. Ajudando, roubamos da criança a oportunidade de tentar, errar e aprender. Maria Montessori dizia: “Qualquer ajuda desnecessária é um obstáculo ao desenvolvimento”. Esperar uma criança tentar, errar e aprender é uma forma de alimentar sua segurança e sua competência.

Em Zootopia, da Disney, Shakira canta:

Eu não vou desistir, eu vou tentar de tudo
Eu quero tentar mesmo que possa falhar
Eu vou continuar fazendo aqueles novos erros
Eu vou continuar fazendo todos os dias.

Se aceitarmos a lição de Shakira, e de pelo menos dois dos maiores educadores do século XX, cometer novos erros todos os dias é o melhor caminho para o desenvolvimento. Isso vale para as crianças em nossas vidas, especialmente.

Grandes Conquistas

Se desfazer de uma obsessão não é tarefa fácil. Especialmente de uma que, como essa, foi aprendida com nossos pais e professores, desde o começo de nossas vidas.

Talvez possamos começar com um poderoso antídoto. Em lugar de apenas frear nossos impulsos de corrigir, proibir, interromper e ajudar, podemos alimentar nossa nova identidade.

Faça uma lista de três coisas que sua criança precisou se esforçar para aprender. Depois, três coisas que você aprendeu com muito esforço.

Agora, ao lado, anote os erros que ela cometeu no processo. Anote seus erros também.

Valeu a pena errar para aprender? Então, debaixo de todas essas listas escreva isso, para você mesmo: “Valeu a pena errar para aprender.”