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Era uma vez um bar chamado Cais Bar

Em 1985, um ano antes de finalizar o curso de História, um amigo da universidade, músico e mais velho, disse-me: “Vou te levar para conhecer um lugar que você vai gostar muito”. Foi assim que fui apresentado à rua dos Tabajaras, ao Estoril e ao Bar do Raimundinho, em frente à pequena e nostálgica rua Alegre, que, da Tabajaras, dá acesso ao mar de Iracema.

Em verdade, passamos a frequentar mais o Bar do Raimundinho, onde conheci músicos maravilhosos e o sentido da boemia e do ser boêmio. Após uma tarde de muita música, e naquela mesma noite de sábado, caminhando pela rua Alegre e diante das pedras em frente ao Oceano Atlântico, saí caminhando pela areia na direção contrária ao Bar do Estoril. Foi aí que me deparei com aquele bar, cheio de gente alegre, com muitos jovens e músicas maravilhosas.

Daquela caminhada nostálgica pela rua Alegre, veio a inspiração de uma letra, depois musicada pelo amigo Chico Pio. De certa forma, a canção “Outra Saudade” é a minha homenagem à Praia de Iracema:
“Você não falava minha língua /
Mas também eles não falam latim nem grego /
E são felizes egotrips estudantes que se amam /
Ao som urbano do Legião /
Aquela parte, aquela outra parte /
Omitida vivida na cama /
Na cozinha, na pracinha /
Eu sei da solidão da rua Alegre e o vento do litoral…”

Pois é, foi assim que, solitariamente, conheci o Cais Bar, no mesmo ano de sua gestação como espaço que marcou os artistas das gerações de 1980 e 1990 na memória cultural da cidade. De forma semelhante, o Bar do Estoril marcou a cultura, a intelectualidade, a memória dos artistas e de músicas nos anos 1960 e 1970.

Sábado, dia 17, fui assistir a um show em homenagem à “memória”, celebrando os 40 anos do Cais Bar. Após rever e abraçar muitos amigos, e de sentir saudade de outros que não estão mais neste plano, fiquei a observar. A multidão passava a olhar, sem entender a sonoridade daquela música bonita que provocava alegria e emocionava aquela gente já madura, sentada às mesas, mas que parecia não fazer sentido para aqueles jovens.

Cá com os botões da saudade, fiquei a me perguntar: “Cadê os amigos, os papos, os namoros, o chorinho, a roda de samba e as canções? Cadê as pedras e os pingos do mar oceano que refrescavam o bar?”.

Mas a amendoeira-da-praia, conhecida como castanhola, ainda está lá. A parede — o grande painel de caricaturas dos artistas — também. Observei também que o antigo restaurante La Tratoria, hoje Centro Cultural Belchior, havia incorporado a área física do Cais Bar. E fiquei a me perguntar: “Por que o poder público não reduz o Espaço Cultural Belchior e, assim, teríamos de volta o espaço físico e, por conseguinte, a volta do Cais Bar?”.

Sim, Néstor García Canclini tem razão ao se referir aos espaços e temporalidades das construções artísticas:
“O lugar a partir do qual vários artistas latino-americanos escrevem, pintam ou compõem músicas já não é a cidade na qual passaram a sua infância, nem tampouco é essa na qual vivem alguns anos, mas um lugar híbrido, no qual se cruzam os lugares realmente vividos.”

Esses espaços de memória vividos — o restaurante La Tratoria, hoje Espaço Cultural Belchior, como equipamento cultural que visa dar espaço e apoio à cena musical cearense, promovendo atividades culturais variadas em homenagem ao músico Belchior — poderiam dialogar com o Cais Bar e integrar mais cultura e mais possibilidades de produção artística na cidade, além da geração de empregos e do fortalecimento de pontos turísticos.