São Paulo sempre me provoca. Mas, dessa vez, foi diferente. Na minha passagem pela DW, a Semana de Design, em meio a tantos estímulos, materiais, formas e discursos, um momento específico ficou reverberando em mim. Foi na Arena D3, no evento da Dexco, ouvindo a arquiteta Maria Loreto Flores.
Ela trouxe uma frase que, desde então, me faz refletir: “O tempo molda, mas o design transforma.” E talvez seja exatamente sobre isso que venho tentando dizer e fazer há algum tempo.
O tempo, por si só, desgasta, sedimenta, amadurece. Ele revela camadas, cria histórias, impõe ritmos. Mas é o design (e aqui incluo a arquitetura como sua forma mais habitável) que decide o que fazer com tudo isso.
Transformar não é acelerar o tempo, é dar intenção a ele. Enquanto ouvia aquela fala, pensei nos projetos que tenho desenvolvido, nas famílias que atendo, nas rotinas que observo, no caos que tantas vezes chega antes de qualquer desenho. Porque a vida real nunca vem pronta. Ela vem sobreposta, atravessada e urgente. O nosso papel não é apenas “resolver espaços”, é interpretar o tempo das pessoas.
Existe o tempo da casa que cresce com os filhos. O tempo de um consultório que precisa acolher inseguranças. O tempo de uma escola que forma para um mundo que ainda nem existe.
Se o tempo molda, ele também pode confundir. Porque moldar, às vezes, é só adaptar. Transformar exige escolha.
E talvez seja por isso que, depois de tantos anos de profissão, o que mais me move não é o resultado final, é o processo. É o momento em que conseguimos traduzir aquilo que ainda não está claro. Quando o projeto deixa de ser resposta e passa a ser caminho.
A fala de Maria Loreto me lembrou que trabalhar com arquitetura é, no fundo, trabalhar com futuros possíveis. Não desenhamos apenas espaços. Desenhamos o que pode acontecer dentro deles.
E isso exige mais do que técnica. Exige escuta, repertório e coragem de não repetir fórmulas.
Voltei dessa experiência com a sensação de que estou no caminho certo, não porque tenho respostas, mas porque sigo fazendo as perguntas certas.
Como transformar, e não apenas acompanhar o tempo? Como organizar e não apenas reagir ao caos? Como criar espaços que não só funcionem, mas façam sentido?
No fim, talvez seja simples, ainda que nada seja fácil. O tempo vai continuar passando, mas o que fazemos com ele… isso é projeto.
