Voltei de São Paulo com a sensação de que algumas cidades estão reaprendendo a escutar suas próprias histórias e, mais do que isso, a projetar novos futuros a partir delas.
Durante a Expor Revestir 2026, um projeto em especial me atravessou: o Basílio 177. Não apenas pelo resultado arquitetônico, mas, principalmente, pela escuta que tive em uma mesa redonda com os realizadores, entre eles a incorporadora responsável pela transformação. Ali, mais do que um empreendimento, percebi um posicionamento.
O Basílio 177 nasce de um gesto que considero cada vez mais urgente: o de olhar para edifícios existentes não como problemas, mas como potência. Trata-se do retrofit de construções históricas no centro de São Paulo, incluindo um edifício dos anos 1930, preservado por seu valor arquitetônico, que agora ganha novos usos e nova vida.
O que mais me chamou a atenção foi a capacidade de manter a memória enquanto se reorganiza o espaço urbano. Elementos originais são preservados, mas o programa muda: surgem habitações, comércio, áreas de convivência e espaços de circulação que reconectam o edifício à cidade. Não é apenas arquitetura, é urbanismo vivo.
Esse tipo de intervenção revela algo essencial: cidades não precisam crescer apenas expandindo suas bordas. Elas podem e, talvez, devam se reinventar a partir de dentro. Reocupar vazios, ressignificar estruturas, reativar centralidades.
E isso me fez pensar diretamente em Fortaleza.
Estamos nos aproximando dos 300 anos de uma cidade que carrega camadas importantes de história, mas que, muitas vezes, opta por esquecê-las em nome do novo. Quantos edifícios poderiam ser reativados? Quantos espaços poderiam voltar a pulsar se fossem pensados com inteligência, sensibilidade e intenção?
Revitalizar não é apenas restaurar fachadas. É reorganizar fluxos, devolver significado, criar pertencimento. É entender que arquitetura também é memória, e que memória, quando bem trabalhada, é ativo urbano.
Saio dessa experiência com uma convicção ainda mais forte: o futuro das nossas cidades não está apenas no que ainda vamos construir, mas, sobretudo, na forma como escolhemos olhar para o que já existe.
Talvez esteja aí uma das perguntas mais importantes para Fortaleza hoje: o que estamos deixando para trás e o que ainda podemos transformar?
