O ano era 1996. O último na pequena escola porque as séries acabavam na sétima. Eu teria que me mudar para uma escola maior, eu sabia desde o começo desse ano transformador.
Aos 12, meu círculo de amizades havia se ampliado. Por conta das atividades na igreja, me aproximei da filha da catequista da Perseverança, grupo de pré-adolescentes que ainda não tinha idade pra Crisma. Dois anos mais velha, tornou-se a minha guru da adolescência, trazendo novo estilo e novas vontades para a minha rotina.
Além dos batons mais vibrantes e das unhas coloridas, compartilhamos a primeira leitura juntas de livros além dos da escola. Sua tia tinha uma edição encapada das novelas clássicas do José de Alencar – Cinco Minutos e A Viuvinha.
Depois de ela concluir a leitura e me falar maravilhas românticas dessa obra, me aventurei a começar. Para ajudar na experiência, eu estava vivendo meu primeiro amor correspondido adolescente e faltava não pisar no chão de tão enlevada. Me apaixonei também pelo jeito descritivo do José de Alencar, mas não achei nenhum outro livro dele com as famílias dos amigos. Na escola pequena, nada de biblioteca ainda.
Por essa época, tinha o hábito de escrever diário e anotava as partes mais bonitas da leitura por lá, cheia de recortes da revista Carícia e corações. Quando minha mãe achou o esconderijo da agenda diário, inclusive, inventamos um código de letras pra que ela não entendesse nada. Hoje, eu me divirto lembrando, mas na época, morria de medo dos castigos.
Meu namorado secreto adolescente estudava em uma escola maior e, como parte de seus encantos, era um leitor voraz. Sempre via ele com algum livro na mão.
Assim conheci o Pedro Bandeira, com “A marca de uma lágrima” e “Descanse em Paz, meu amor”. Como meu pai não deixava que eu namorasse, a gente se encontrava na pracinha da igreja, depois do curso de violão. E entre beijos inocentes, ele me emprestava os livros da escola dele.
No fim desse ano, minha melhor amiga se mudou e outra catequista assumiu a turma da Perseverança, a esposa do meu professor de violão. Ao visitarmos a casa deles, descobrimos o tesouro: eles tinham um quarto inteiro cheio de livros, com várias estantes. Religiosos, de música, biografias, poesia e literatura.
Foi nessa biblioteca particular que eu conheci alguns livros religiosos, como a biografia de Santa Teresinha, “História de Uma Alma”, que foi a minha primeira aquisição pessoal como presente de aniversário. Virei devota da santinha das rosas.
Conheci também o Neimar de Barros, que, depois, soube de rumores de que, na verdade, era um espião infiltrado na igreja no tempo da ditadura militar.
Outro livro inesquecível dessa biblioteca privada foi “O Profeta”, do Gibran Khalil, que eu amava escrever na agenda alguns trechos.
O amor, a amizade e as bibliotecas alheias me ajudaram a driblar a falta de livros e o incentivo à leitura na minha pequena escola. A busca pelos livros continuou, pelo menos por esse ano, como apenas mais um tipo de diversão e inspiração para que eu escrevesse as minhas cartinhas de amor, sempre com versos de alguém famoso. O que acontecia também com as que eu recebia desse primeiro amor.
Com a escola nova, chega enfim o tempo dos paradidáticos, na oitava série, em 1997. Finalmente, pude me reencontrar com o José de Alencar e conhecer outros autores clássicos como o Machado de Assis e a Rachel de Queiroz. Eu ia montar minha própria biblioteca! O que eu não sabia ainda era o quanto era difícil ter uma resposta certa ao interpretar uma questão relacionada à leitura que, até hoje, parece ser algo tão íntimo e subjetivo. Mas, isso é assunto para outra crônica. Até lá.
