Era uma noite de domingo. Meu filho mais novo, de 10 anos, chegou da rua e me perguntou quem era a Maria da Penha. Achei estranho o questionamento e ele me contou a razão: disseram a ele que Maria da Penha era uma grande mentirosa porque inventou que o marido tinha tentado matá-la. A história “real” era que ela e o marido tinham sofrido um assalto e o bandido atirou nela. Essa era a “verdadeira” razão de estar na cadeira de rodas.
Olhei com espanto para meu filho caçula. Como podiam ter contado uma história falsa dessas pra ele? Maria da Penha sofreu essa tentativa de feminicídio no ano que eu nasci, há mais de 40 anos. É uma autoridade reconhecida internacionalmente no combate à violência contra a mulher e graças à sua luta foi criada a legislação mais utilizada hoje para prender homens abusadores. Mesmo assim, ainda há quem questione e se interesse em propagar as mentiras, já refutadas à exaustão, espalhadas por seu ex-marido desde o tempo do crime.
Para acabar com esse absurdo, vou investigar de onde essas informações falsas surgiram e percebo que é por conta de um canal no YouTube. Há três anos, um episódio espalhou a versão contada pelo autor do crime na época do acontecimento como se essa fosse a versão verdadeira. Ele contou que a casa havia sido invadida de madrugada e um bandido atirou na coluna de Maria da Penha. Mais adiante, foi descoberto que, na verdade, foi ele quem efetuou os disparos e ainda tentou matá-la eletrocutada depois.
Procuro algum vídeo mostrando um resumo da história dessa grande ativista que é a Maria da Penha e mostro o quanto meu filho estava enganado. Agradeço a ele por ter me contado para que eu mostrasse o quanto uma informação falsa pode machucar.
Isso porque cada vez que uma pessoa deixa de acreditar na tentativa de feminicídio de Maria da Penha, o grito de muitos algozes de mulheres por aí se torna verdade: – “Ninguém vai acreditar em você”; “Isso não vai dar em nada!”…
Quantas mulheres, além dela, não ouviram isso ao avisar que iriam expor os crimes de violência? Quantas inclusive morreram e morrem tentando apenas ter uma vida normal depois do fim de um relacionamento?
Não foi só o meu filho de dez anos quem caiu nessa fake news. O deputado Gustavo Victorino, afirmou, em entrevista à TV da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, que a farmacêutica Maria da Penha “nunca tomou um tapa” do ex-companheiro. Além dele, devem ter muitos homens por aí propagando esse absurdo, seja por desinformação ou de propósito por acharem que as mulheres estão cheias de direitos demais.
Posso estar sendo pessimista, mas a impressão que tenho é que a geração de homens nascida a partir de 2010 é uma das mais complicadas de se lidar. Noto os meninos consumindo muito conteúdo ligado aos “Red Pills”, especialmente os adolescentes, o que estimula um desprezo pelas mulheres em uma fase que o caráter está se formando.
Para eles, Maria da Penha, só por ser mulher, já não merecia respeito. E sendo de esquerda e separada, menos ainda. Podia ser classificada como a tal da mulher aproveitadora que os influencers de relacionamento pedem para manter distância ou usar e descartar, como se fosse lixo.
Que missão complexa nós, mães de meninos, temos! Respeitar as mulheres e ser gentil deixou de ser regra básica em muitas casas, infelizmente. Às vezes, as próprias mães são as primeiras vítimas desses projetos de criminosos.
Vou fazer sempre o possível para esclarecer as fake news que contarem para os meus filhos. Mas e nas outras casas? Será que as pessoas têm esse mesmo cuidado? Qual será o tamanho do estrago que essas gerações de influenciadores misóginos e formadores de opinião mentirosos estão trazendo para a sociedade?
Os primeiros frutos podres já estão surgindo com o aumento dos feminicídios e estupros. É um trabalho de formiguinha lutar contra essa maré de atraso e violência que temos presenciado. Mas, se o que está ao meu alcance direto é escrever sobre isso e orientar meus filhos contra esse tipo de desinformação e preconceito, é isso que vou fazer. Sigamos varrendo o lixo.
