Natal sempre foi uma época de festas, comilanças, excessos e — por que não? — algumas discordâncias entre parentes. Mas, para a atual geração de pais e cuidadores, cada vez mais bem-informada sobre desenvolvimento cognitivo e socioemocional, essa época ganhou outra camada: a das discussões sobre o que a data representa, os rituais que envolve e o peso que as tradições precisam ter na vida das crianças e da família.
A verdade é que cabe a você, mãe, pai, cuidador, decidir o que faz sentido para a sua casa — quais tradições combinam com os valores que deseja transmitir e quais rituais merecem ser repetidos ano após ano. E, independentemente de celebrar ou não o Natal, há inúmeras razões para manter vivas certas tradições em família. Algumas vertentes da psicologia — positiva, existencial-humanista, do desenvolvimento — apontam para quatro pilares fundamentais quando buscamos valor e sentido na vida: Being, Belonging, Believing, Benevolence. Numa tradução livre: significância pessoal, pertencimento, crença e altruísmo.
Ter senso de significância pessoal é ter noção da própria base e aceitar quem se é, com pontos fortes e limitações. É reconhecer falhas sem perder a gratidão por si. Já o pertencimento nasce do olhar social: saber que se é parte integral de um grupo onde há conforto, reconhecimento e troca verdadeira. Estar entre pessoas que compartilham valores e tradições diminui a solidão — e, com ela, ansiedade e depressão.
A crença — espiritual ou ética — refere-se aos princípios que orientam nosso comportamento. Para uns, é Deus; para outros, um conjunto de valores que inspira conduta moral. Esses princípios dão significado tanto aos momentos de alegria quanto aos de dor, moldando quem somos e orientando o que desejamos transmitir aos nossos filhos.
Por fim, a benevolência: a forma como afetamos positivamente a vida das pessoas ao nosso redor. Nosso legado não está
nos objetos que acumulamos, mas nos atos de gentileza e respeito que deixamos espalhados pela “atmosfera social”.
Partindo desses quatro conceitos, fica claro o papel essencial que tradições e rituais desempenham em nossas vidas. Eles representam a base da nossa cultura, ajudam a estruturar famílias e sociedades e nos lembram que fazemos parte de uma
história que define nosso passado e molda nosso futuro. Ignorar esse significado é corroer a própria identidade.
Tradições — sejam religiosas, culturais ou apenas divertidas — oferecem às crianças um profundo senso de conforto e pertencimento. É como se dissessem: “Você está aqui, você pertence a este grupo, é isso que fazemos nessas datas.” Elas são pequenas celebrações da nossa identidade familiar: “é daqui que viemos, são essas as memórias que nos moldaram, é isso que significa ser parte desta família.”
O psicólogo Marshall Duke, ao lado de Robyn Fivush, investigou justamente essa força das narrativas familiares. Ao aplicar a escala “Você sabe?” a quase 50 famílias, descobriram que quanto mais uma criança sabia sobre suas origens, maior sua autoestima, sua sensação de controle daprópria vida e sua percepção deque sua família era funcional.
Eram crianças mais resilientes e capazes de moderar os efeitos do estresse. Não porque decoraram fatos, mas porque entenderam que pertencem a uma narrativa maior. É claro que o estudo tinha uma amostra pequena e não permite generalizações definitivas, mas a teoria que ele levanta é valiosa: crianças que conhecem a sua história tendem a se sair melhor diante dos desafios. E tradições são um dos caminhos mais naturais para oferecer essa base desde cedo.
Outro estudo, conduzido por Ann Buchanan na Universidade de Oxford, mostrou que alto envolvimento dos avós aumenta o bem-estar das crianças e reduz problemas emocionais e comportamentais. Tradições, portanto, funcionam como elos intergeracionais que enriquecem a infância. E não estamos falando apenas do Natal. Há rituais cotidianos — a rotina da hora de dormir, um aperto de mão entre pai e filho, uma oração, uma música. Há tradições semanais, como um filme em família às sextas, e tradições anuais, como a foto do primeiro dia de aula.
Todos os dias oferecem oportunidades para criar memórias. Tradições também ensinam valores. Se sua família reza antes
das refeições ou vai à igreja todo domingo, você comunica que fé importa. Se reúne parentes ou abre a casa para amigos, mostra que laços familiares e comunitários são prioridade. Esses momentos nos lembram de pausar para celebrar o que realmente importa, agradecer pelas contribuições das pessoas à nossa vida e, assim, cultivar caráter.
É importante lembrar também que tradições não precisam ser algo rígido. Elas são vivas, reinventáveis, moldadas conforme a família cresce. Quando escolhemos rituais com intenção — considerando a idade dos nossos filhos, nossos valores e o que desejamos transmitir — transformamos o Natal (ou qualquer outra data) em algo que vai muito além dos presentes ou da logística. Ele se torna um capítulo da memória afetiva da família. Porque as histórias que contamos às crianças através das nossas tradições carregam verdades profundas sobre quem somos, de onde viemos e o que valorizamos.
Tradições são, em essência, a maneira como narramos o mundo para elas — com símbolos, personagens, rituais e pequenos gestos que transformam conceitos abstratos em algo que cabe nas mãos de uma criança. Pertencimento não nasce em longas conversas filosóficas com crianças. Ele nasce nos rituais: no “todo ano a gente faz isso”, no “é assim que a nossa família celebra”, na repetição que vira memória. Quando escolhemos tradições com intenção — levando em conta nossa fé, nossos valores, nossas memórias e a idade dos nossos filhos — criamos algo que presente nenhum consegue comprar: memória afetiva.
