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Dragão de sorrisos e lágrimas

Em 1999, quando o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura foi inaugurado, eu era uma adolescente de 16 anos. Por essa época, eu já amava ir com os amigos na Ponte dos Ingleses. Para isso, a gente passava por dentro dele. Dessa forma, o percurso ficava mais longo e charmoso, especialmente na ponte vermelha de ferro. Não tinha smartphone, então nada de fotos. Uma pena.

Nossa turma sempre tinha mais de um violão. Às vezes, nas mochilas, alguém levava um vinho São Brás ou um Rum Montilla, para misturar com Coca-Cola.

Quando eu conheci esse Centro Cultural, imaginava que tinha esse nome porque era um lugar comprido, com um rabo grande como os dragões da fantasia. Depois que fui saber quem era o jangadeiro.

Na sua Praça Verde, construída provavelmente em cima da velha casa do Mister Hull, que mantinha o tradicional hábito do chá da tarde mesmo em Fortaleza, ouvi o finado Cordel do Fogo Encantado, a Nana Caymmi e a Fernanda Takai, com seu projeto especial para crianças. Naqueles bancos, também conheci minhas amigas que escrevem para a foto histórica com as escritoras cearenses. Ali, começava um novo movimento na minha vida.

Essa parte dos shows, eu fiz questão de povoar de novas lembranças, assim que pude. Vi Fausto Nilo, um dos idealizadores daquele lugar, pela primeira vez cantando ao vivo com um show emocionante no ano passado. Depois desse show, tomei o último chopp de vinho do Bixiga, ali embaixo da ponte vermelha. Já tinham anunciado o fim daquele lugar. Dois meses depois, fecharam portas e janelas de tijolos. Aquele sobrado viu tantas versões minhas, acompanhada dos grandes amores que eu tive e pensava ser eternos. Fui feliz ali.

Com a Ana Cañas, no Anfiteatro, eu levei uma queda que me deu hematomas nos joelhos e me fez chorar de dor. Mas, quando ela cantou Fotografia 3×4, eu chorei foi relembrando o quanto eu imaginei que nunca mais pisaria naquele lugar, por tantos motivos. As lágrimas deram lugar ao riso depois que encontrei minhas amigas e dividimos tantas histórias hilárias bebendo uma cerveja, no bar do avião. Quase duas décadas antes, minha versão mais jovem e rockeira dançou naqueles degraus de cimento, ao som dos Renegados e do Arnaldo Antunes.

Embaixo do Planetário Rubens de Azevedo, único lugar do equipamento cultural do Dragão do Mar em que nunca entrei, eu esperei o dia amanhecer algumas vezes para pegar o meu ônibus pra casa. Por lá, também me abriguei da chuva e curti uma pequena ressaca, depois do meu casamento civil, porque emendei depois do cartório, um show no Cine São Luiz e mais umas apresentações no Amicis e no Bixiga. Só fui para casa amanhecendo o outro dia.

Nas salas do Cine Unibanco, passei um ano inteiro conferindo tudo que era filme, depois de ganhar meu passe livre por ser jornalista. Nunca tinha me sentido tão importante na vida, embora o único filme que tenha ficado vivo na memória tenha sido o Lavoura Arcaica, com Selton Mello e algumas cenas bem toscas.

As exposições do Museu de Arte Cearense, o MAC, eu adentrei trabalhando num domingo, fiquei admirada com tudo e prometi retornar com todos de casa, o que ainda não aconteceu. Nessa mesma tarde de plantão, ainda tinha o Pintando no Dragão, que reunia uma multidão de crianças com guache e folhas nas mãos.

No Café Santa Clara, o mais sofisticado que eu conhecia, deixei muitos 50 reais por dois capuccinos e tapiocas recheadas. Eu acreditava que valia muito a pena apenas por estar naquele ambiente perfumado, decorado e chique. Muitos contos perdidos meus tiveram esse café como cenário imaginário. Hoje, só o que tem é café legal nessa cidade, embora eu continue conhecendo poucos.

Quem mais lembra da Livraria ao Livro Técnico, com seus livros caríssimos de arte e suas instalações ao lado do banheiro que já era bastante malcuidado nesse tempo?

Hoje, trabalho pertinho do Dragão, o que me possibilita dar umas passadas rápidas por lá, de vez em quando. Desço todos os dias naquela ladeira que já me deu frio na barriga em outros tempos e observo o vermelho das flores dos flamboyants do seu terreno. Pena que sempre tenho medo de atravessar aquela praça deserta a pé, na maioria dos dias.

Quero viver o Dragão de novo mais do que antes. Ouvir as canções de quem por ali se apresentar, conferir as peças de teatro, desfrutar da sua vista, construir novas memórias que não deixem os meus olhos marejados com o que já passou. Eu sei que vou conseguir.