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Do bichinho virtual ao amigo virtual: que espaço deixaremos a virtualidade ocupar na vida de nossas crianças?

Você se lembra do Bichinho Virtual? Era um aparelho pequeno com quatro botões. Na tela de cristal líquido havia um animalzinho que podia receber um nome e precisava ser alimentado, medicado, ninado e banhado de tempos em tempos. Fui responsável por fins trágicos da vida de vários bichinhos virtuais.

Basta relatar o último: Depois de vários dias sem cuidados, e vítima de um acúmulo de sujeira, doenças, sono e fome, o fim da bateria aliviou o sofrimento de meu dinossauro. Crianças abandonam jogos o tempo todo. Meu “Tamagoshi” não foi o único que morreu, e quase toda criança e adolescente abandona brinquedos e jogos eletrônicos em algum momento, sem dor ou sofrimento.

Essa semana, porém, milhares de crianças protestaram com placas, incendiando pneus e bloqueando estradas, maldizendo e ameaçando um famoso YouTuber. Fizeram isso virtualmente, é claro, dentro da plataforma Roblox.

Tudo porque, por força de lei, o chat do aplicativo foi limitado para crianças menores de dez anos, como uma forma de protegê-las de adultos que utilizavam o chat para aliciamento de menores para crimes sexuais. Não restam dúvidas de que a iniciativa é positiva, ainda que tenha buracos e a verificação etária seja problemática. Para as crianças, no entanto, a modificação foi sentida de uma maneira completamente diferente.

Resume-se o problema em uma placa, preservando a grafia original: “O CHATE DE COMVER PRECISA VOLTAR NINGUÉM AGUENTA MAIS”.

Outras placas perguntavam como vão conversar com amigos e parentes de longe e, em um caso específico, um avatar feminino dizia sofrer bullying na escola e ter amigos no ambiente virtual. Agora, ela não sabia o que fazer. Para os adultos, os protestos são cômicos, e há sempre a desconfiança de que abusadores de crianças tenham iniciado a manifestação.

O problema nos lembra de algo que quase todos os dias optamos por não enxergar: Múltiplas esferas da vida das crianças agora existem apenas na tela.

As crianças estão se encontrando na rua, estão se reunindo, correndo riscos e se aventurando. Elas não perderam o desejo ou a capacidade de fazer tudo o que seus pais e avós faziam. A diferença é que fazem tudo isso em um mundo virtual.

O que já foi chamado de Second Life (Segunda Vida) e metaverso (com letra minúscula) se materializa sobretudo na vida das crianças. Assim talvez fique mais fácil entender que elas não estão jogando no Roblox, mas vivendo em um universo paralelo.

Por isso, quando sua comunicação dentro da plataforma é interrompida, vemos uma revolta popular. Achamos que proibimos as crianças de conversar com estranhos enquanto estão jogando, mas elas foram impedidas de conversar com seus conhecidos em um segundo mundo onde elas também vivem. Ser favorável à regulamentação da virtualidade não basta. Precisamos compreender a virtualidade, e mais do que isso compreender as necessidades das crianças e dos adolescentes em nossas vidas, antes que grandes empresas de games os compreendam melhor do que nós.

Use a Cidade, Junte Crianças

Se você quiser ajudar as crianças a viver menos na tela, o único jeito de fazer isso é aumentar a quantidade de vida a que elas têm acesso fora das telas. Nós subestimamos as nossas cidades. Mesmo as mal planejadas costumam ter algum lugar onde é possível jogar bola, pular corda, ou brincar de pega-pega.

Uma parte de nós pode ter esquecido as brincadeiras, e outra parte pode ter esquecido como é estar junto. Comece com as suas crianças, ou as que você conhece bem, e expanda aos poucos.

Brinque com elas. Corrida, pular em um pé só e amarelinha estão ao alcance de todo mundo. Os programas de aluguel de bicicletas das prefeituras adicionam mais uma possibilidade incrível. Comece pelo que você gostar mais, e depois não pare.