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Devaneios de uma anfitriã e sua travessa lascada

Como faço todo ano, tirei as travessas e os pratos caros do armário para lavar. Era Dia de Ação de Graças, uma data bastante celebrada por essas bandas aqui ao Norte do Equador. Mais uma vez, eu estava encarregada da ceia e a casa estava quase pronta para receber nossos amigos. Foi então que avistei uma lasquinha na travessa onde eu serviria o purê de batata.

Tentei não olhar para ela enquanto passava a esponja. Tentei ignorá-la enquanto a água escorria. Mas a lasca parecia acenar, toda faceira, num convite inadiável para que eu lidasse com o meu perfeccionismo. Porque sim, servir meus convidados numa porcelana lascada estava me incomodando — por menor e quase imperceptível que fosse. Automaticamente, adicionei mais um item à infindável lista de afazeres: comprar uma travessa nova antes do Natal.

Continuei lavando, secando, organizando pratos, taças, talheres e travessas. E, à medida que as mãos trabalhavam, a mente foi trabalhando também, evocando memórias de ceias passadas. A travessa foi comprada na nossa primeira ceia na casa nova, a primeira vez em que seríamos anfitriões, não fossem as restrições trazidas pela pandemia. Ainda assim, mesmo sendo só nós quatro — eu, meu marido e meus dois filhos —, foi especial, a primeira vez que, sem muita confiança e sem a pressão de alimentar visitas, assamos um peru.

Na ceia do ano seguinte, a travessa serviu meus pais, que vieram passar o Dia de Ação de Graças aqui depois de ficarmos dois anos sem nos ver. Meu pai, que sempre achou purê uma comida sem graça, achou o meu saboroso, já que cozinhei as batatas no creme de leite fresco com ervas.

Um ano depois, a travessa serviu toda a família do meu marido. Nós dois, agora assadores de peru profissionais, pousamos orgulhosos para a foto. Eu, com um barrigão de oito meses, à espera da nossa terceira filha.

Nos anos seguintes, nossa mesa esteve rodeada de amigos queridos e repleta de comidas deliciosas. E a travessa esteve lá. Em que momento a lasca aconteceu, eu não sei, mas, à medida que as memórias surgiam, comecei a perceber que nenhuma travessa nova, com a porcelana ainda intacta, nos serviria com esse tanto de história.

Sabe-se lá por que, depois de uma semana insana de trabalho e de planejar e cozinhar uma ceia sozinha, eu estava agora divagando sobre uma travessa de porcelana. Seriam esses os primeiros sinais de loucura? Talvez. Mas a verdade é que a lasca na travessa da ceia me levou a uma reflexão profunda sobre o que importa de verdade.

Fiquei pensando no kintsugi, a técnica japonesa que restaura cerâmicas quebradas com uma mistura feita de ouro ou outros metais. É a arte de transformar o quebrado em algo ainda mais valioso — não apenas reparado, mas enobrecido. Mais do que uma técnica, representa uma filosofia: o wabi-sabi, que celebra a beleza da imperfeição, da transitoriedade e do desgaste.

Não que a minha travessa vá ser restaurada com ouro. Na casa de uma escritora e de um bombeiro, ouro simplesmente não faz parte da mesa. Mas talvez o ponto seja justamente esse: a travessa nem precisa de ouro ou de reparação, porque seu valor está na imperfeição, nas marcas acumuladas pelas experiências vividas, pelas ceias colecionadas.

A verdade é que andamos muito intolerantes às imperfeições inerentes à vida, porque nosso olhar está cada vez mais treinado pelos recortes perfeitos da existência instagramável que consumimos diariamente. Nas redes sociais, a casa, os objetos, as pessoas parecem operar em nível máximo de otimização. A vida parece sempre organizada, iluminada, coerente, bonita, simpática. A mesa posta já não tem espaço para um jogo americano que não combina, para uma caneca com frase cafona, para uma travessa com uma lasca. Tudo precisa funcionar, combinar, se encaixar. E, quando não se encaixa, basta trocar, devolver, substituir, editar, filtrar. Sob a lógica do consumo exacerbado alimentado pelas redes, se não estiver perfeito e na moda, descarte e compre outro. É só clicar no link abaixo.

E não é só o consumismo desenfreado que nasce disso; também nascem expectativas desleais sobre nós mesmas. Queremos ser mães impecáveis, profissionais irretocáveis, donas de casa organizadas, anfitriãs dignas de revista — numa matemática que, além de não fechar porque o dia simplesmente não tem horas suficientes, ainda enlouquece e adoece mulheres. Queremos mesas perfeitas, crianças comportadas, emoções sob controle. E, ao menor sinal de imperfeição, tomamos isso como fracasso pessoal, não como um simples lembrete de que a vida, teimosa e imponente, simplesmente acontece.

Assim como as lascas, rachaduras e arranhões dos objetos, nossas próprias imperfeições fazem parte de quem somos. Em vez de nos envergonharmos delas ou tentar descartá-las a qualquer custo, podemos honrar o fato de que contam partes importantes da nossa história. A real beleza da vida não está na ausência de falhas, mas na presença de significado.

No fim das contas, nossas casas não precisam parecer um filme. Nossos jantares não precisam parecer um editorial. Nossos objetos não precisam ser novos. Nossas vidas não precisam seguir um padrão. Elas só precisam ser vividas — com a travessa lascada, o gesto torto, o improviso, tudo aquilo que não é perfeito, mas é verdadeiro e tem história.