Quando Francesco Bernardone, São Francisco, nasceu em Assis, em 1181 ou 1182, a sociedade feudal passava por um momento de transição, – da terra como valor de riqueza ao dinheiro com o crescimento das cidades, do comércio e do capitalismo. Segundo o historiador francês Jacques Le Goff em seu livro, “São Francisco de Assis”, para Francisco, “A senhora pobreza será, certamente, a afirmação da recusa aos valores econômicos sociais da sociedade aristocrático-burguesa”, não aceitando a capitalização e o enriquecimento da igreja secular e do próprio Papa Inocêncio III, inclusive que tentou eliminá-lo. De volta a Assis, Francisco e seus companheiros instalaram-se no campo em uma cabana abandonada, e lembrou aos companheiros que, segundo Le Goff: “Se vai mais rapidamente ao céu de uma cabana que de um palácio”.
Faz tempo que esse negócio de opção, de ajuda aos pobres, doentes e sem teto, parece que não agrada à igreja conservadora, aos mais abastados e nem à extrema-direita. Assim como Bernardone, o argentino Jorge Mario Bergoglio fez essa opção pelos pobres e decidiu seguir. Ainda bem que Deus é brasileiro, mas o Papa era argentino e o único Sumo Pontífice jesuíta na história da igreja. A ordem dos jesuítas surgiu no século XVI, como reação da Contrarreforma Católica ao crescimento do protestantismo na Europa. Reafirmando os seus dogmas, a igreja, dentre outras medidas, manteve a inquisição e criou a Companhia de Jesus.
Como soldados de Cristo, os jesuítas foram enviados pela igreja às colônias para a realização da catequese dos indígenas, impondo a cultura dos brancos europeus através de um processo de etnocídio, ou seja, de negação da cultura dos povos originários e, por vezes, apoiando o processo de genocídio, ou seja, de extermínio dessas populações nativas por militares. Talvez por receberem e exercerem as ordens militaristas da igreja, os jesuítas nunca foram bem vistos para assumirem o papado. Pois é, Jesus não era filho de um rei, de um imperador ou de um homem rico e poderoso, mas de um humilde carpinteiro, e nasceu em uma manjedoura.
O padre Jorge Mario Bergoglio, ao fazer opção pelos pobres argentinos, pelos operários desempregados e famintos e aos presos políticos contra o regime militar argentino, chamou a atenção dos cardeais em Roma. Mesmo tornando-se arcebispo e nomeado cardeal na Argentina, em 2001, continuou morando em um pequeno quarto da igreja. O cardeal Bergoglio, ao tornar-se o 266° papa jesuíta da história e o primeiro sul-americano, autodenominou-se de Francisco em homenagem a São Francisco de Assis. Francisco, ao assumir o pontificado, não aceitou anel nem crucifixo de ouro, usava apenas roupas simples, brancas e sapatos comuns. Em 2020, aterrorizado com a pandemia da covid-19 e pelo medo da morte, – Francisco rezou pela humanidade e caminhou na Praça de São Pedro vazia, parecendo estar sentido naquele momento ‘a dor do mundo’.
Creio que Franciscus tenha partido com tristeza, por não ter conseguido conter as guerras que matam hoje tantas crianças, mulheres e inocentes. Na sua encíclica de 2015, Laudato Si’ (Louvado sejas), ele criticou o modelo de desenvolvimento irresponsável que provoca alterações climáticas e a degradação ambiental, autorizou a bênção de casais do mesmo sexo e fez severas críticas às injustiças do capitalismo. Os conservadores e a extrema-direita não gostavam muito de suas ideais e determinações, e alguns o chamavam de comunista. Nessa semana, o Bolsonaro foi entrevisto por um Canal de televisão dentro da UTI, e quando perguntado sobre legado de Francisco à frente da Igreja Católica, desdenhou: “Eu lamento a morte, e de grande parte das pessoas pelo Brasil à fora (sorrido)”. Que cristianismo é esse que ele segue mesmo?
E por falar em Cristianismo, certo dia, o padre Júlio Lancellotti recebeu um telefonema. Conversa vai e conversa vem, e Lancellotti perguntou: “mas quem está falando”? E do outro lado da linha a voz, Francisco. O padre Lancellotti, tentou chamá-lo educadamente de Sumo Pontífice e o Papa Franscisco disse-lhe: “Continue a me tratar do mesmo jeito. Eu estou observando o seu trabalho de longe. Continue alimentando os famintos e com a preferência pelos pobres”. Será que é um presságio?
