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De tudo se faz canção e os sonhos não envelhecem

Lá estava eu, em 1979, um secundarista de 16 anos, após cinco anos educado pelos padres no Colégio da Piedade. Não tinha consciência política e muito menos da memória e história de vida de alunos que ali haviam estudado e se tornado famosos, como Raimundo Fagner. Nem tão pouco tinha conhecimento da existência, na cidade, do movimento cultural e artístico do Massafeira livre, idealizado pelo cantor e compositor Ednardo e Augusto Pontes, o “agitador cultural”. Foi na banda do colégio que tive a minha primeira experiência musical tocando corneta e depois trompete. De forma simultânea, acontecia a outra experiência musical, favorecida pelas audições no rádio da cozinha: Waldick Soriano, Roberto Carlos, Ronnie Von, Jerry Adriani, Genival Lacerda, Evaldo Braga e tantos outros. Foi em um sábado à tarde que a minha experiência musical mudou por completo. Na casa de umas primas, ali no Bairro de Fátima, o namorado de uma delas estava ouvindo umas canções na radiola, e, vendo o meu interesse, disse-me: “Conhece esse disco? Esse cantor Beto Guedes?”. Depois da audição, como de praxe na época, curioso, fui direto ao encarte ver os compositores e quem eram aqueles músicos que tiravam aquele som. As canções revelaram-me nomes que não conhecia, como na bela canção, “Amor de Índio”, Beto Guedes/Ronaldo Bastos e nas canções, “Luz e Mistério”, Beto Guedes/Caetano Veloso, música que ainda marejo os olhos quando a escuto, e “Feira Moderna”, Beto Guedes, Fernando Brant e Lô Borges, e outros tantos que passei a acompanhar os trabalhos. As letras delicadas e melodias singelas e complexas de Lô sempre me envolveram, como a canção “Feira Moderna”, uma das minhas preferidas da tal MPB. No final dos anos 70, muitos grupos de artistas, como: os baianos, o “Pessoal do Ceará”, os pernambucanos e os mineiros, mudaram definitivamente a estética da Música Popular Brasileira com suas melodias e sonoridades. Os mineiros do “Clube da Esquina” sempre se mantiveram unidos, especialmente Lô Borges, Milton Nascimento, Márcio Borges e Beto Guedes. Lô, além do amigo, Milton Nascimento, teve canções que ganharam versões famosas de outros intérpretes como: Flávio Venturini, Marcos Valle, Ana Carolina, Elis Regina, Cássia Eller, Skank, Roupa Nova, Vander Lee e Tom Jobim, que fez a tradução para o inglês e gravou com Sting uma versão mais Cult da bela canção, “O Trem Azul”: “Coisas que a gente se esquece de dizer/ Frases que o vento vem às vezes me lembrar/ Coisas que ficaram muito tempo por dizer/ Na canção do vento não se cansem de voar/ Você pega o trem azul, o sol na cabeça/ O sol pega o trem azul, você na cabeça/ O sol na cabeça”. A interpretação de “O Trem Azul” na voz de Elis Regina dispensa comentários. No disco, “Angelus” de Milton Nascimento, o Bituca para a turma da Esquina, inclusive um belo disco, mas pouco divulgado e comentado por aqui, traz a melhor e mais emocionante interpretação e qualidade sonora da canção “Clube da Esquina n’2”, composta em 1972 com melodia de Lô Borges e Milton e letra de Márcio Borges, irmão de Lô: “Porque se chamavam homens/Também se chamavam sonhos/ E sonhos não envelhecem/ E basta contar compasso/ E basta contar consigo/ De tudo se faz canção/ E o coração na curva de um rio, rio, rio, rio, rio/ E lá se vai mais um dia….”. Lô, você deixou o coração na curva do rio, mas os sonhos não envelhecem, não morrem como as canções e os artistas.