Há quinze anos, trabalho com adultos para construir relações melhores com as crianças. No começo, quando eu visitava famílias, copiava em um caderninho todas as frases que os pais diziam para seus filhos. Muitas eram parecidas: “Vem comer!”, “lava a mão antes de comer”, “solta a gata, deixa ela”, “não pisa no sofá de sapato”. E conforme eu copiava, desconfiava de que havia um padrão ali. Então, sentei com as páginas abertas, e fiz as contas.
Eu podia encaixar 80% do que os adultos diziam para as crianças em dois grupos de frases: Ou os adultos diziam para as crianças fazerem coisas, ou para não fazerem coisas. Eu imaginava que as famílias conversavam, e descobri que a maior parte dessa interação verbal não era formada por diálogos, mas por comandos e proibições.
Maria Montessori, psiquiatra e educadora, perguntava: Alguma vez você deixou sua criança fazer o que ela quisesse, mesmo que só por um dia, sem interferência? Ouvindo uma pergunta assim, nossos pensamentos vão imediatamente para os riscos: “Ele vai se machucar”, “a casa vai ficar imunda”, “ele não vai fazer nada direito”.
Então, podemos fazer uma pequena adaptação: Que tal deixar sua criança fazer o que ela quiser, mesmo que só por um dia, e só interferir caso ela se coloque em risco? Ainda pode parecer demais, e se você nunca experimentou pode soar até assustador.
Então, vou simplificar um pouco: Experimente deixar sua criança fazer o que ela quiser, mesmo que só por uma tarde, e só interferira caso ela se coloque em risco.
Vai ficar tudo bem, mas mais ainda: Você se surpreenderá com a imensa vontade de viver de seus filhos, e a capacidade que eles têm de superar dificuldades e aprender soluções para problemas por conta própria.
Há apenas uma regra importante: O dia não pode incluir telas para ninguém. Se seu filho “fizer o que quiser” e passar a tarde no tablet, ou você se distrair no celular e no computador enquanto ele “faz o que quiser” em casa, ninguém terá vivido a experiência de liberdade que estamos buscando.
Não diga que o dia será diferente. Não precisa dizer nada. Só permita. Se você permitir, duas coisas vão acontecer: Primeiro, você sentirá nós na boca do estômago e sua respiração vai parar algumas vezes. Faz parte, permita que isso ocorra. Entre um coração acelerado e outro, você verá seu filho fortalecido, curioso e alegre. Da parte de seu filho, a confiança em você ficará mais profunda, ele pedirá ajuda quando precisar, e reconhecerá a casa com um espaço que pertence a ele também.
Limites
A mesma Maria Montessori que disse para deixar as crianças livres escreveu que interrompemos muito as crianças, dizendo a nós mesmos que é “pelo bem delas.”
E então continuou: “É curioso como o bem da criança coincide, frequentemente, com o nosso próprio conforto.”
Para nos ajudar a diferenciar o bem da criança e o nosso conforto, Montessori sugere apenas três limites para usarmos com as crianças. Podemos interromper nessas situações: Se a criança estiver se colocando em perigo, se machucando ou fazendo mal a si mesma; Se a criança estiver prejudicando qualquer outra pessoa ou ser vivo, de qualquer maneira; Se a criança estiver danificando o ambiente, sujando excessivamente, ou estragando objetos.
Nesses casos é importante interromper a criança com firmeza e gentileza. Basta redirecionar sua atenção ou ajudá-la a corrigir o erro, e depois ela pode fazer as coisas que lhe interessarem de novo. Experimente. Vale a pena!
