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Consciência Negra, para quem? 

Lá estava eu no domingo à tarde, mexendo nos canais da TV, quando vejo um desses programas de auditório repleto de mulheres. A apresentadora fazia perguntas e premiava as que respondiam corretamente. Duas perguntas feitas às mulheres jovens e maduras chamaram-me a atenção: “O que se comemora no feriado do dia 15 de novembro?” e “Qual a data em que comemoramos a Independência do Brasil?”. Diante de tantos erros seguidos, fiquei pensando: “Elas devem ter passado pelos bancos escolares e estudado”, “Algumas parecem mães, mas se não sabem como ensinam os filhos?”, “Como brasileiras, então, elas não têm conhecimento da relevância e importância da representação dessas datas para o próprio país?” Cá com os meus botões, lembrei: daqui a alguns dias, será o feriado do dia da Consciência Negra. Será que essas mulheres, seus filhos, estudantes secundaristas e universitários e tantos brasileiros têm conhecimento histórico, crítico e reflexivo e consciência da importância do movimento negro no Brasil e por que do feriado? Não vou nem entrar na discussão que se intensificou em nosso país a partir de 2001, quando as cotas para negros nas universidades viraram um campo de debates na grande mídia, envolvendo diferentes setores da sociedade. Não tenham dúvidas, as cotas foram conquistadas pela atuação histórica do movimento negro. Para os pesquisadores Verena Alberti e Amilcar Pereira, da ação do movimento negro resultaram: “O tema das cotas e das ações afirmativas em geral, a maior presença do negro em programas de TV, como protagonistas de novelas e âncoras de noticiário, e a criação de organismos de poder público como a Secretaria Especial de Políticas de Promoção à Igualdade Racial (Seppir)”. Será que nos livros de história, os professores de ciências humanas dão a verdadeira importância histórica ao negro Luiz Gama, advogado autodidata, jornalista, poeta e abolicionista, e ao também negro André Rebouças, engenheiro, militar, inventor, professor, intelectual brilhante e um dos mais importantes abolicionistas brasileiros? Alguém já ouviu falar do negro Abdias do Nascimento, que dirigiu o Teatro Experimental do Negro e a Orquestra Afro-Brasileira, fundada em 1942? Para quem não sabe, foram negros que fundaram: “Em 1943, o Teatro Popular Brasileiro, a União dos Homens de Cor, criada em Porto Alegre, em 1943, a Companhia Afro-Brasileira de Dança Brasiliana, em 1949 e a Associação Cultural do Negro, fundada em São Paulo, na década de 1950”. Além de todas as lutas históricas anteriores, na década de 70, o movimento negro contemporâneo foi inspirado e envolvido pelo movimento negro norte-americano e africano. A partir de então, lançou estratégias de mobilização com reuniões de estudo, discussões, seminários, palestras etc, sobre a questão: “O que é ser negro no Brasil?”. Nesse contexto, afirmam Alberti e Pereira, houve “um processo de construção da identidade e de iniciativas que elevassem a autoestima: o cabelo, a cor, o nariz, o passado e as manifestações culturais dos negros deveriam ser valorizados, rompendo com o permanente sentimento de inferioridade do negro diante do branco”. Em 1978, o dia 7 de junho, é um marco para o movimento negro, quando nas escadarias do Teatro Municipal, houve um protesto contra a morte de um operário negro e contra a expulsão de quatro atletas negros de um clube paulista. Desse ato resultou a formação do Movimento Negro Unificado (MNU), existente até hoje e responsável pela difusão da noção de “movimento negro”, e que não tem uma única liderança. 20 de novembro foi celebrado, o Dia da Consciência Negra, como data de valorização histórica da luta da população negra como referência a morte do líder Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência contra a escravidão. Quem foi verdadeiramente Zumbi dos Palmares? Como foi morto e o que fizeram com o seu corpo? Qual a importância dos Quilombos? Esses relatos e consciências históricas da realidade interessam a quem?